sábado, janeiro 21, 2006

Prateleira #1 - Ten

Inicia-se assim uma rúbrica cuja função é resgatar, para o leitor e para a memória, albúns que marcaram a história da música. Saídos da prateleira, limpa-se o pó ao ritmo dos clássicos. Como Ten, dos Pearl Jam. Pelos 15 anos do primeiro cd da banda de Eddie Vedder, relembra-se aquele que seria um dos fundadores do Grunge.

No final dos anos 80, a cidade americana de Seattle é isso mesmo. Apenas mais uma cidade americana. A juventude, geração que mais tarde ficaria conhecida como a Geração X, não encontra apelo em nada e o desentusiasmo é reinante, face às não perspectivas de futuro. É nesta ciclização entediante de gerações que surge o Grunge.

Em termos musicais, o Grunge é muito simples. Buscam-se os sons dos anos 60-70 e vestem-se-lhes novas roupas. Neil Young, Beach Boys, Otis Reading, Led Zeppelin ou Bob Dylan com guitarras agressivas e um pano de fundo mais caótico. Em termos sociais, o grunge é o grito de uma geração que quer mais. Uma geração que não se revê no que ficou para trás, no conservadorismo, e que, para a frente, não vê nada de interesse. Para o lado, fica a garagem.

Território musical de muito experimentalismo, muita guitarrada Hendrixiana, muitos rifs, muitos solos eléctricos, o grunge é um movimento de garagem, um conceito que nasce nesse espaço e cuja música, suja e desarrumada, se reflecte disso mesmo. Vozes agressivas, vocalistas marcantes e incontornáveis e um ambiente pesadão são imagens de marca. Apesar dos surtos e fases, por cima dos vários nomes, quatro bandas marcam inconfundivelmente o nascimento do Grunge em Seattle: Alice in Chains, Soundgarden, Nirvana e Pearl Jam. Dentro destes nomes, dois albúns servem de catálogo turístico aos visitantes à descoberta. Nevermind, dos Nirvana e Ten, dos Pearl Jam.

E se Nevermind, um pouco à semelhança dos Nirvana, não foge à ribalta mediática, Ten é o perfeito exemplo do espírito Grunge. Combativo, alternativo e rebelde. Todos os mitos têm uma lenda. No caso dos Pearl Jam, reza a lenda que o guitarrista Stone Gossard envia a um desconhecido Edward Severson III três rascunhos. Stone Gossard, a par do baixo Jeff Ament, procurava um vocalista para a sua banda. Edward Severson III, daqui em diante conhecido por Eddie Vedder, num isolamento de três dias de surf exaustivo, compôs "Alive", Black" e "Even Flow". Nasciam os Pearl Jam.

Lendas à parte, do que falamos é do primeiro cd de Pearl Jam, Ten, de 1991, que seria editado e produzido pouco depois da banda se completar. Ten viria revolucionar a música. Não por dentro, corroendo o mainstream, mas por fora, dando picadas em forma de gritos na Pop plástica e dançável dos anos 80. Eddie Vedder, um pouco a par de Kurt Cobain e de Billy Corgan, personificava a adolescência. Kurt Cobain mais explosivo, Billy Corgan mais místico, Eddie Vedder mais intimista. Eddie Vedder que não contendo uma voz melódica, continha aquilo que se pedia. Uma voz forte, demarcável e que acentuasse a indisposição que a banda pretendia.

Ten é um albúm de adolescentes para o mundo. Um abrir do armário e gritar tudo de uma vez. Os amores, a política, a desilusão, a pressão, a emoção, a força, o desprendimento e a dor. E depois, voltar a fechar o armário. Um pouco à semelhança do que tinham feito os Joy Division, em Ten, mostrava-se uma juventude que queriam esconder. Só que esta juventude está cheia de dor, amargura e melancolia. Mas tem força.

Ten é também um primeiro cd de uma banda. Voz a mais e guitarra a menos, a produção do cd revelou-se incaracterística e talvez inexperiente, mas conceptualizou um som onde o principal instrumento é a voz de Vedder, que sobressaí de tudo o resto. Um baixo, uma bateria e uma guitarra compõem o pano de fundo. O curioso é que, embora neste cd se encontrem gritos explosivos de revolta, nele se encontram também inesquecíveis baladas. Aliás, salvo raras excepçóes, o percurso dos Pearl Jam é um percurso de envelhecimento (físico e mental) notório, que culmina de momento no baladesco e ternurento Riot Act.

Aquilo que verdadeiramente impressiona no cd é a sua notória influência. Visto à luz de 15 anos, confirma-se o que então apenas se adivinhava. Em Ten, ouve-se: Folk, Hard-Rock, Grunge, Metal, Altern-Rock e um imensidade de nomes que ou se seguiram ou estiveram por trás. Otis Reding, The Wailers, Dave Matthews, Pixies, Neil Young, Nirvana, Soudgarden, Silver Jews, The Smashing Pumpkins, Foo Fighters, The Doors, Jimmi Hendrix, Eric Clapton, Beach Boys, Mudhoney, The Sonics ou Mother Love Bone.

Ten que, ao contrário do que o nome indica, possui onze faixas no seu alinhamento original. Começando numa toada relativamente calma com "Once", nada nos prepara para a avalancha de sobreposições de guitarras e voz, com uma maéstrica bateria a comandar o ritmo. Melodiosa, mas agressivamente, vai surgindo o baixo. Depois de "Once", começa o recital de clássicos que o se adivinhavam. Segue-se "Even Flow", para muitos a melhor música de sempre da banda, "Alive", um grito estóico de uma geração sufocada e "Why Go", a eterna compreensão pais-filhos. De seguida, o hino deste cd. A música que cataboliza a transformação do albúm na penumbra melancólica que o recobre, desde logo pelo título: "Black". Seguem-se na mesma toada, numa manutenção histórica de força ao longo do cd, "Jeremy", "Oceans", "Porch", "Garden", Deep" e, por último, "Release".

Estavam lançados os Pearl Jam (nome da compota da avó de Eddie Vedder, Pearl.) Pelos 15 anos do cd, sabe recordar um cd que influenciou como poucos os 15 anos seguintes. Quantos mais por vir sobre a alçada de Ten?

Título: Ten
Autor: Pearl Jam

Nota: 10/10

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Hitchhiker, queres polémica? É? Então vais tê-la! Isto não fica assim! Quando andares tranquilamente pelas ruas, tem cuidado, olha para trás, nunca se sabe o que te pode acontecer. O grunge nunca mais será o mesmo.

12:23 da manhã  
Blogger Hitchhiker said...

Caro anónimo, o Grunge já não é o mesmo...

3:03 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

O tanas!

11:03 da manhã  

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