quarta-feira, novembro 08, 2006

Erva Vermelha

Infelizmente o meu testemunho de hoje é sobre uma peça de teatro que já não está em cena. Erva Vermelha esteve em cena até ao domingo passado na Sala Estúdio do Teatro da Trindade. Para os que não assistiram a esta encenação perderam a oportunidade de serem inseridos num interessante debate sobre a criação teatral.
O texto original de Boris Vian não é dramático. O cenário era formado por três paredes brancas. Os actores não são dos nomes mais falados pelo grande público. No que é que isto resultou? Num espectáculo de enorme qualidade! Difícil de digerir, terá sido mesmo considerado um insulto por muitos teóricos classicistas. Mas a consequência que me parece mais lógica é a rendição à verdade de um conceito. Não está em causa a queda dos grandes clássicos, pelo contrário pretendo mostrar a diversidade que a arte teatral pode assumir.
Tudo começa no delirante livro de Boris Vian. Conceptualmente genial, Boris Vian expõe num pequeno texto a procura praticamente onírica, das causas para uma vida entediante. A personagem principal, um engenheiro, cria uma máquina do tempo para o auxiliar na sua busca. Todo o universo intrínseco à criação do autor é brilhante. O cão falante, as personagens, o cruzamento de histórias, as referências passadas resultam numa cadência ritmada e propícia à representação.
Cristina Carvalhal, encenadora do projecto, aproveita-se desse ritmo para desenhar uma hora de espectáculo. A palavra desenhar não está aqui posta por acaso. As três paredes brancas eram no fundo três enormes telas onde um desenhador presente em palco projectava a sua arte em tempo real. Fascinante como três paredes brancas se tornam no cenário mais completo das peças de teatro que tenho assistido. Os desenhos eram pormenorizadamente perfeitos e não se limitavam a ser cenário, eram mais uma personagem. Exímia encenação de Cristina Carvalhal.
Ana Lúcia Palminha, Flávia Gusmão, Pedro Carmo, Pedro Lacerda, Sara Cipriano e Tiago Mateus foram o elenco. Um elenco muito consistente e que transmitia uma segurança inabalável. Era visível que todos eles têm “muita escola” e estiveram os seis brilhantes. É injusto estar a destacar um nome, mas tenho que referir um momento: a viagem na máquina do tempo da personagem principal interpretada por Pedro Lacerda. Só alcance dos predestinados. Relembro que Pedro Lacerda não tinha qualquer elemento cénico de apoio e, no entanto, conseguiu persuadir-nos a embarcar na mesma viagem.
Erva Vermelha foi a segunda peça da trilogia do cão do Teatro da Trindade. Em cena está a última peça desta trilogia, Timbuktu.

2 Comments:

Blogger totoia said...

O teatro Trindade ainda tem aquele barzinho com peças de teatro?

9:25 da manhã  
Blogger Ensaio said...

Sim. Existem quatro espaços para representações no Teatro da Trindade: Sala Principal, Sala Estúdio, Teatro Bar e Teatro Politécnica.

5:20 da tarde  

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