terça-feira, outubro 17, 2006

Primeiro as Senhoras

“Arrasa. O que posso dizer da pergunta do senhor Inspector é apenas isso: arrasa. Com efeito, abadonei o meu carro a cem metros da Igreja dos Prazeres, aonde me desloquei para o velório do Gaspar Olívio Ripas, que afinal era outro Gaspar Olívio Ripas, e consolar a Marilinha Misse, se fosse o caso. Ao dito carro não voltei porque me raptaram com sequestro de nove dias. Realmente, como se explica que a viatura fosse vista três madrugadas depois, vazia e sossegada, à porta do Bar Afunda?
Respondo: daquele carro tudo se pode esperar.”


Vem dar pelo nome de Primeiro as Senhoras – Relato do último bom malandro o mais recente livro de Mário Zambujal. Mais conhecido nas lides jornalísticas, onde conta com participações em vários jornais, desde A bola ao Diário de Notícias, passando pelo Tal & Qual, Mário Zambujal entra de rompante no mundo editorial literário com o bem-disposto Crónica dos Bons Malandros, no início da década de 80. Pelo meio, até 2006, três obras até chegarmos a este Primeiro as Senhoras.

Como diz a sinopse do próprio livro, “Primeiro as Senhoras não é uma continuação da obra Crónica dos Bons Malandros”. De facto, a história que compõe este exercício de humor não é uma sequência desse livro. Contudo, será uma sequência quanto ao tipo de leitor visado e tipo de texto. Apesar de uns furos abaixo do seu primeiro best-seller, Zambujal insiste no bom-humor e na capacidade de síntese de personagens populares.

Edgar é a personagem central desta história, senão mesmo a única. Narrador exclusivo do enredo, é pela sua boca que vamos tendo conhecimento das aventuras e desventuras do próprio, dos que o rodeiam e, sem espanto, dos que não o rodeiam também, num prolongar de gags e contos que desnorteiam qualquer um. Desnorteado ficará o Inpector a quem todo este diálogo se dirige, que, apesar de sempre presente, nunca fala. Muitas das vezes porque a fluência de Edgar não lho permite.

São história de juventude cruzadas com memórias de conquistas cruzadas com o policial base, o “rapto, alegado rapto, digamos” de Edgar, que chega à Polícia após nove dias de cativeiro, alegado cativeiro, digamos. É por entre estas histórias, e ainda outras, que Zambujal descreve o último dos bons malandros. Com humor, neologismos e uma fiel descrição dos traços gerais de muitas personagens da vida popular portuguesa.

Um livro com sentido de humor, mas que mesmo assim não escapa à sombra de Crónica dos Bons Malandros. Para além disso, um livro eminentemente escasso, onde a história por vezes não convence e parece ser apenas mais um pretexto para um gag. Não fosse isto encaixar relativamente bem na personagem principal e as falhas fariam mais estragos ao (pequeno) livro. Umas (poucas) horas de boa-disposição e uma possível fonte de monólogos teatrais.

Título: Primeiro as Senhoras
Autor: Mário Zambujal

Nota: 6/10

3 Comments:

Blogger totoia said...

Uma verdadeira decepção!

10:26 da manhã  
Anonymous Inês said...

uma verdadeira decepção?peço desculpa mas o livro está muito bom mesmo!

7:03 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

achei o livro espectacular mesmo!!!

10:07 da tarde  

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