sexta-feira, novembro 24, 2006

A Festa

Spiro Scimone, natural de Messina, é nos dado a conhecer na biografia que antecede as peças incluídas neste livro. Livro que faz parte de uma maravilhosa colecção de peças de Teatro, editadas por parte dos Artistas Unidos, trazidas para o grande público num formato economicamente muito acessível e com grande sentido pragmático, de nome “Livrinhos de Teatro”. De Spiro Scimone encontramos compilados neste livro, Nunzio, Café e A Festa.

Nunzio e Café terão à partida um factor aliciante que as torna, coloquemos a coisa assim, diferentes. Escritas num dialecto próprio e característico de Messina, colocavam as personagens num universo muito intimista e reservado, fruto da linguagem usada. Não havendo paralelo entre a realidade italiana e a portuguesa, Jorge Silva Melo (que assina a tradução das duas peças com colaboradores diferentes) opta pela criação de um dialecto próprio que se torna num exigente desafio à tradução, mas que é realizado de forma original e consistente, conferindo-lhe um toque único.

Contudo, não é de Nunzio, nem de Café que falamos aqui. É de A Festa, terceira peça de Spiro Scimone, traduzida também, e aqui em exclusivo, por Jorge Silva Melo. Posta em cena pela primeira vez no Teatro Esther de Carvalho, em Montemor-o-velho, é à volta de 3 personagens que gira a trama. 3 personagens que são verídicas demais para não serem confragedoramente próximas do nosso quotidiano. No fundo, Scimone consegue, como em Nunzio e Café, construir o mesmo tipo de ambiente, sem recorrer aos artifícios do dialecto de Messina para isolar as personagens num mundo fechado e claustrofóbico.

É em jeito de Tchéckov que é criada esta família. Nada se passa, tudo é uma realidade viva (no texto) mas mortiça (no conteúdo). Um marasmo que as personagens alimentam e da qual nem parecem ter consciência. Talvez Gianni, o filho, seja o que mais se aproxime da concepção de heroí mais presente em Tchéckov, enquanto personagem que parece ter alguma percepção do que o rodeia. A Mãe e O Pai, apenas assim, personagens indistintas, são apenas o reflexo de uma sociedade adormecida, preocupada com o seu umbigo e necessidades próprias. Não por consciência, mas por desinteresse.

A Festa de que se fala são os anos de casados do Pai e da Mãe. Mas esta festa não é mais do que o pretexto para Scimone nos relatar a sua visão de uma realidade familiar e social sem futuro nem presente. Uma mãe e um pai demasiado ocupados nas suas quezílias constantes e sem sentido no tornado de confusões emocionais em que se tornou a sua relação desgastada e desgastante. Desgastada para eles, desgastante para Gianni, consciente e reprovador, mas cada vez mais uma imagem absorvida pela contexto que o envolve.

Uma peça sobre a realidade italiana mas que, notoriamente, não se esgota nela, sendo o seu conteúdo e interesse de carácter actual e premente enquanto critica às relações das sociedades modernas.

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

No espectáculo português a mãe era magistralmente interpretada pelo Miguel Borges, o Américo Silva (pai) e o Pedro Carraca (filho herói - como dizes).
Posso dizer-te que era muito bom. Tal como as outras peças todas que fizeram, desse livro. O Cafu - como eles diziam - e o nunzio em que quem contracenava com o Miguel era o João Meireles.
Esses espectáculos pertencem ao período áureo dos Artistas Unidos na Capital, velhos tempos...

1:58 da manhã  
Anonymous Cacá Toledo said...

Olá,

gostaria de saber como conseguir um exemplar desse volume com as três peças.

Obrigado.

4:26 da manhã  

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