quinta-feira, janeiro 04, 2007

Prateleira #9 - Little Earthquakes

Little Earthquakes foi o álbum de estreia de Tori Amos enquanto cantora a solo. Antes do lançamento deste disco, já ela tinha tentado lançar-se no mundo da música, em conjunto com a sua banda, num álbum que a Rolling Stone classificou de "piroso". Por isso, pode dizer-se que Little Earthquakes foi o seu primeiro grande trabalho, fazendo com que o mundo lançasse os olhos para o seu talento. Antes disto, Tori fazia pequenas actuações ao piano, alguns covers e alguns originais, num bar em Los Angeles.

Contudo, e apesar do aspecto promissor da cantora e compositora, a editora Atlantic rejeitou o seu projecto para este CD, temendo que ninguém estivesse minimamente interessado numa pobre rapariga ao piano, ainda por cima já chamada de pirosa por uma autoridade músico-social. Talvez isto tenha impulsionado mais a dedicação de Amos, uma vez que acabou por conseguir lançar no mercado o seu disco, em 1992. O público escolhido foi o britânico, que, segundo se dizia na década, estava enjoado da norma vigente e ansiava por excentricidade. Tori Amos provou ao Reino Unido que conseguia fazer muito mais do que escrever meia dúzia de canções fáceis de ouvir, com um arranjo de piano pegajoso. Em poucas palavras, criou um álbum que apaixonou fãs, que criou um estilo, que marcou a década pela sua qualidade.

A primeira faixa deste disco apresenta logo a sua bonita voz, bastante maleável, num tema chamado Crucify. Esta não é, de longe, a melhor faixa do disco, ainda que ilustre um pouco do que se há-de seguir no resto do CD. E não falo só das letras poderosas e intensas, cheias de intenções e de refúgios, mas da música plena de sofrimento e intensidade. "Looking for a savior in these dirty streets Looking for a savior beneath these dirty sheets I’ve been raising up my hands drive another nail in Where are those angels when you need them."

Girl insurge-se como um poderoso exercício musical. O piano não é melodicamente disciplinado, e Tori mostra-se perfeitamente à vontade quer no delinear da melodia cantada, quer na execução do instrumento. As cordas acompanham essa execução em que Amos consegue mostrar o mais íntimo de si, o mais doloroso, arrancando ao piano trilhos muito fora do normal. A faixa corre muito bem, o refrão conta com uma delirante sobreposição de vozes, a percussão acompanha sem aborrecer, e tudo acaba com um final imponente por parte das cordas.

Em Silent All These Years temos mais um exemplo da paleta de Tori Amos ao piano, enquanto canta palavras aguçadas. As cordas vão embalando a melodia num crescendo até que o refrão se assume como um momento desarmante, para de novo cair nas notas alternadas sobre as teclas. Desta vez, as cordas tornam a sombrear a voz e o piano, mas o refrão repete-se ainda com mais força: Tori canta idilicamente bem e as vozes de fundo misturam-se maravilhosamente sobre o piano. É o momento mais perfeito de uma faixa perfeita, pelo que, apesar de não ter sido o single, foi a canção deste álbum mais passada na rádio britânica.

Precious Things começa com um fundo grave e intenso até o piano começar com um ritmo perturbador. A sucessão harmónica é assustadora! Uma nota grave no piano suscita o início e Tori canta pouco depois. No refrão juntam-se vozes e a bateria, tornando a música uma corrente muito fluida e também muito gelada, até que uma nota se esboça num grito adolescente e dissonante sobre os instrumentos. Mais tarde, surgem outros instrumentos numa sucessão bem desenvolvida e igualmente emocional. No fundo, esta é a música menos normal deste CD, o que, aliado a uma letra cheia de dor, a torna na melhor faixa. “Holding on to his picture Dressing up every day I wanna smash the faces Of those beautiful boys Those christian boys So you can make me cum That doesn't make you jesus.

Sucede-se Winter, a faixa mais bem disciplinada do disco, mas que não peca por isso, uma vez que atinge um nível de melancolia tal que se torna quase surreal ouvi-la. É também uma das mais conhecidas músicas de Tori Amos, talvez pelo facto de conseguir mostrar ao público uma letra diferente, uma variedade mais normativa sobre o piano, um excelente e intenso refrão. O tema melódico é simples e bonito, pelo que fica a tocar algum tempo na nossa imaginação. O mesmo acontece com o sentimento de profunda tristeza que se apodera no ouvinte.

Happy Phantom é um excelente contraste para acordar quem pensava que Amos só desenhava músicas deprimentes. Com uma excelente arquitectura dos acompanhamentos instrumentais, Happy Phantom exprime-se sobretudo numa sucessão rítmica ao piano. É humorística, destaca-se particularmente pela luminosidade, pela variação harmónica, pela modulação da voz de Amos. Um fantástico exemplo de como tentar algo de novo e consegui-lo na perfeição.

China tem um jeito mais comercial (sem nunca chegar a sê-lo!), mas ainda assim consegue surpreender nalguns momentos. Apesar de não ser um momento de composição particularmente brilhante, põe à prova as mãos e a voz de Tori Amos. Em contrapartida, Leather é absolutamente fascinante: a letra grita sem ser necessário recorrer à música, se bem que o piano ilustre muitíssimo bem o génio de Tori. As guitarras eléctricas emolduram uma evolução fantástica das notas em staccato até ao desenvolver do tema numa sucessão de notas sem qualquer voz. "Look Im standing naked before you Don't you want more than my sex I can scream as loud as your last one But I can't claim innocence."

Mother evoca um sentimento edipiano de busca pelo conforto no calor materno, alienando momentos com um excelente acompanhamento ao piano. Do mesmo modo que a letra preenche, as notas secas nas teclas englobam a ânsia ao cantar, ao tornear um tema bonito em algo de ainda mais superior. Os últimos dois minutos são de uma qualidade suprema na interpretação e na composição… e são um conter de respiração ao fim de quase sete minutos.

Tear in Your Hand consegue estragar um pouco o clima geral do álbum. Tem muito de vulgar, mesmo para quem ouve Tori Amos pela primeira vez. Isto é bastante perceptível a partir do momento em que algumas partes da faixa se estranham pela diferença.

Me and a Gun foi o single no Reino Unido, mas não pegou. Parece evidente, uma vez que esta música tem uma carga emocional absolutamente petrificante, mesmo cantada a capella. Aqui, Tori Amos fala de uma violação, remetendo para a sua história pessoal que inspirou muitos dos sentimentos vividos neste disco. Destaque para a fabulosa intensidade da melodia, perfeitamente independente da letra (que também está muito bem conseguida). Esta faixa perturbará quem ainda não está perturbado com a melancolia que se transpira ao longo do CD. "Me and a gun and a man On my back But I haven't seen Barbados So I must get out of this (…) And do you know Carolina Where the biscuits are soft and sweet These things go through you head When there's a man on your back And you're pushed flat on your stomach It's not a classic Cadillac."

Por último, Little Earthquakes traz algumas novidades a nível de harmonia de vozes e da sua conjugação com o piano e com alguma percussão. Funciona muito bem como resumo musical do que ficou para trás e mexe com uma letra que sintetiza um sentimento geral dissecado em todas as suas formas. Para os mais cépticos, os últimos minutos da música provam como aconteceu algo de tão bom na forma de fazer música. Tudo isto faz de Tori Amos uma voz, um reinventar de poesia, uma expressão na composição, um marco na interpretação, um exercício de renovação. Este álbum consegue condensar faixas memoráveis, momentos musicais intensos e sentimentos profundos. Nas palavras de Amos, “doesn’t take much to rip us into pieces.


Título: Little Earthquakes

Artista/Compositor: Tori Amos

Ano: 1992

2 Comments:

Anonymous  said...

É dificil acreditar que a tori amos seja algum mais do que a pirosice que lhe reconheceram logo à partida.

1:28 da tarde  
Blogger Zonnebril said...

Reconheceram-lhe logo à partida, é evidente, uma certa "pirosice". É claro que o reconheço, como é óbvio, até na capa do disco Y Kant Tori Read. Posteriormente, Tori afastou toda a "pirosice" que lhe era inerente (corte de cabelo incluído) para produzir um dos grandes discos da década de noventa. E aqui não se trata de uma questão de gosto ou de estilo, mas uma questão de qualidade musical que Tori Amos alcança indubitavelmente em Little Earthquakes (isto sem fazer qualquer tipo de comparação). A música da cantora/pianista choca, sem dúvida, mas a sua qualidade é inegável. Também não troçaram de grandes compositores aquando da produção das suas grandes obras, que viriam a ser recohecidas mais tarde? Meu caro Zé, aconselho uma nova audição de Little Earthquakes (embora suspeite que não será uma nova, mas sim uma primeira).

5:22 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home