domingo, novembro 26, 2006

Das Parfum - Die Geschichte eines Mörders


O Perfume - A História de um Assassino

Baseado no romance imortal de Patrick Süskind, chega agora às salas de cinema um filme que foi uma batalha cinematográfica de alguns anos. Muitos foram os realizadores que ambicionaram pôr em película as páginas repletas de odores que Süskind descrevera, de um modo tão real, em cinco anos (entre eles contam-se Martin Scorsese, Ridley Scott, Tim Burton, Milos Forman e Stanley Kubrick). Para a maior parte dos amantes deste livro, seria uma crueldade a ideia de adaptá-lo para o cinema, porém, a regra é quase inquebrável: o livro que vende geralmente transforma-se num filme que vende. Ainda assim, esta tentativa de passar a filme uma obra tão cheia de profundidade implicou um esforço muito grande por parte dos argumentistas e do realizador.

Tom Tyker, realizador e compositor alemão, assina a partitura da banda sonora e dirige os actores sobre um enredo tecido e aromatizado por Andrew Birkin e Bernd Eichinger. Para além disso, consta que também teve algo a dizer na adaptação da obra para um guião. O ponto de partida deste filme é precisamente o que resultou tão bem no livro de Süskind: a abertura de um mundo tão negligenciado pelo Homem que, fiel à visão e à audição, deixa passar por si o espantoso e denso universo das essências, fragrâncias e odores. Este local tão efémero é muito bem idealizado no livro... o que trouxe ao filme um problema acrescido: como narrar uma história que acontece em função do olfacto?

Mas Tom Tyker aborda a questão sem sombreados nem pinceladas comerciais. Conta, com a ajuda de um narrador, a história de Jean-Baptiste Grenouille, desde o seu nascimento no local mais fétido de Paris, até à sua vibrante viagem por lugares com cheiros novos e desconhecidos. Jean-Baptiste descobre desde cedo que é dotado de um incrível olfacto, conseguindo identificar, discriminar e separar todos os odores do mundo. Aliada a esta descoberta, surge outra terrível: Grenouille é o único ser humano que não possui odor natural.

Assombrado pelo facto de o seu corpo ser inodor, o jovem assume um percurso de obsessão pela beleza, de procura pelo perfume mais belo e maravilhoso do mundo. Parte, então, para a tentativa de preservar um aroma. E cedo compreende a complexidade do que pretende, sobretudo porque pretende capturar cheiros muito mais fugazes do que a vida.

É de um modo quase bárbaro que assistimos à decadência da personagem, sempre sobre a boa e estável interpretação do inglês Ben Wishaw, frio nos seus olhos azuis cheios de um silêncio só traduzível em odores. Ao lado desta nova e fresca interpretação, temos outras duas de destaque: Dustin Hoffman, irónico e cheio de humor no papel do perfumista Baldini, e Alan Rickman, de volta ao cinema num papel à sua altura. Somos ainda deslumbrados com a beleza e a nudez da britânica Rachel Hurd-Wood no papel de Laura.

O que há, então, de singular neste filme? Ainda que fique muito longe de conseguir o que Patrick Süskind conseguiu, O Perfume - A História de um Assassino é um bom exercício de cinema, explorando dimensões pouco usadas, pormenores pouco utilizados, realces pouco vistos. Traz muito de bom, muito de novo. Respiram-se, por vezes, a imagética tentada na obra: os frascos imensos de óleos e aromas, as técnicas cheias de arte, a busca incessante pelo que de mais puro na humanidade: o Amor. Desta vez, lido em doze teclas (mais uma extra) que compõe os acordes da alma do perfume.

Nomeado para o Grande Prémio do Festival de Flandres, na categoria de melhor filme, O Perfume foi o filme alemão mais dispendioso de sempre. Destacam-se o guarda-roupa, uma fotografia exemplar, uma caracterização perfeita. A banda sonora é soberba, usando muitos sons e instrumentos etéreos para definir o inregistável. E haverá algo melhor do que sons para definir odores? A câmara de Tom Tyker, quem sabe, faz deste filme isso mesmo. Isto, sem dispensar a leitura atenta do romance homónimo de Süskind.


Título/Ano: Das Parfum - Die Geschichte eines Mörders (2006)

Realizado por: Tom Tyker

Escrito por: Tom Tyker, Andrew Birkin & Bernd Eichinger

Elenco: Ben Wishaw, Dustin Hoffman, Alan Rickman, Rachel Hurd-Wood.

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Gostei de ler a crítica. considero que não se pode perceber o filme nem fazer uma boa crítica sem se ler o excelente livro de Suskind. Certo é que leu o livro. Acho o livro uma obra magnífica do ponto de vista artístico e não se pode transferir tal acontecimento literário para a vida real sem se lhe dar a margem de "poesia", "inspiração" e "expressão" que só um puro artista compreende e sente. Escrevo este comentário por causa de eu ver esta como uma crítica bem construída, consciente e objectiva da obra em questão e não ser fruto de um pensamento preconceituoso ou mal definido. Gostei do livro mas menos do filme e defendo a obra como a senti no livro.
Boa crítica.

3:05 da manhã  
Blogger Caligvla said...

Sobre adaptação de livros para o cinema, eu acho que são desafios que nem todo diretor na realidade consegue êxito. No caso de "O Perfume", são acrescentadas coisas, e omitidos fatos importantes narrados no livro, lugares são mudados, além do incomodo de a toda hora ter uma narrativa, dando na cara que é uma adaptação de um livro que não teria como, simplesmente pela história em si, compreender sem ler o livro. A pior falha foi o simplismo que deram a um dos melhores trechos do livro, a hibernação de Grenouille em uma caverna, em Plomb du Cantal. Ficou sem sentido algum no filme, fazendo parecer que ele teria ficado apenas algumas semanas, quando ele ficou lá por anos, sobrevivendo. Uma parte muito engraçada sobre uma das primeiras rejeições de Grenouille, da primeira mulher que o devolveu ao convento onde foi posto para adoção, foi omitida. A do Marquês de la Taillade-Espinasse e a sua teoria do fluido letal, também, e partes que não são narradas no livro, foram acrescentadas sem necessidade alguma. Estes trechos todos, onde ele é usado pelas pessoas, são muito importantes na construção do personagem, de como ele vai se tornando um assassino e despreza a raça humana. Traspassar a idéia do perfume que Grenouille teria criado e do efeito que ele tinha sobre as pessoas ficou um pouco mal definido, pois este era o maior desafio de uma filmagem destas e o grande medo de Patrick ao não permitir por anos a adaptação.

5:13 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home