segunda-feira, abril 09, 2007

Dúvida


Em cena no Teatro Maria Matos encontra-se a peça Dúvida, de John Patrick Shanley. Com encenação de Ana Luísa Guimarães, a peça galardoada com os prémios Pulitzer e Tony, conta com interpretação de Eunice Muñoz, Diogo Infante, Isabel Abreu e Lucília Raimundo. O Teatro Maria Matos volta a apresentar um espectáculo que se mostra consistente na sua linha de programas, um novo passo na criação de um espaço de reflexão, de exigência e de confronto. Como se pretende um Teatro.

Dúvida envolve-nos no contexto de uma igreja e respectiva escola da década de 60 no Bronx, em plena Nova Iorque. Sobre o Padre Flynn, a determinada altura, recairão as suspeita de assédio sobre uma criança, a primeira criança negra na instituição. A fonte destas suspeitas será a Madre Superiora Aloysius que consegue convencer a bem intencionada irmã James para a acompanhar na sua cruzada contra o mal, que na sua convicção, tem o rosto do Padre Flynn. Para ajudar, a mãe da criança, um estereótipo de elevada qualidade, é trazido à questão, numa interessante caracterização da sociedade americana da época.

O que Shanley nos traz é um muito aprazível conjunto de questões, de inegável actualidade e pertinência, numa peça bem estruturada e urdida. Pecará pela sua fluência nem sempre estreita e por um fim, mais do que previsível, insonso. Mas nada lhe retirará a capacidade máxima que, em última análise, é a função do Teatro. A de fazer pensar. E isso Shanley mostra dominar, trazendo à baila, de forma inteligente e nunca demasiado incomodativa, o pior de várias facetas da sociedade, em geral, e do clero, em particular. Dúvida fala-nos, numa primeira instância, de pedofilia. Não da sua parte mais óbvia e tão em voga, vendo a criança, mas pelos olhos de quem se apercebe. A inquietação da necessidade de agir perante a falta de provas que não a convicção. Todo este conflito de interesses ganhará especial interesse, e a isso não terá sido alheia a escolha da peça, quando vista à luz dos acontecimentos recentes que entupiram a imprensa nacional.

Mas Dúvida é ainda um pertinente alerta para outras questões. Uma figura de uma Igreja demasiado burocratizada e hierarquizada. Um clero masculinizado e inoperante. A força da dúvida por oposição à da certeza. A denúncia da pederastia no seio da Igreja. O poder do boato e a incapacidade de evitar as suas consequências. O peso das acções e a necessidade das mesmas. Estes são alguns dos muitos temas que vemos sendo dissecados ou meramente sugeridos na encenação de Ana Luísa Guimarães. Encenação que, apoiada por um maleável e poderoso cenário, se mostra acertada e tranquila, deixando o protagonismo, quando este é possível, para os actores.

Falar de actores nesta peça é falar de Diogo Infante, que se mostra, nesta primeira vez que sobe ao palco do Maria Matos desde que dele se encarregou, cada vez mais maduro e cada vez mais versátil. Vê-lo em Animal, de Roselyne Bosch, e vê-lo como Padre Flynn, é prova cabal disto mesmo. Quer a nível técnico (atente-se, na peça, na sua colocação de voz), quer a nível psicológico. É à volta de Diogo Infante que Dúvida gira, esteja, ou não, presente em palco. Suportando-o temos uma excelente Isabel Abreu (Laramie, Coisa Ruim, Dot.com) no papel de Irmã James e uma incompreensivelmente titubeante Eunice Muñoz no papel de Irmã Aloysius, numa interpretação sem chama nem de boa memória, que em nada faz jus aos galões que o seu nome ostentam.

O que fica desta Dúvida é a certeza de haver Teatro de referência em Portugal. A certeza da consolidação de um projecto, o Teatro Maria Matos, que em tudo revigora e revitaliza o género em Portugal, contribuindo, ainda, para uma chamada activa do público para as salas. Disso, não há dúvida.

Título: Dúvida
Autor: John Patrick Shanley
Encenação: Ana Luísa Guimarães
Elenco: Eunice Muñoz, Diogo Infante, Isabel Abreu e Lucília Raimundo.

4 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Uma peça a não perder...

5*

Miguel

1:07 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

..."Eunice Muñoz no papel de Irmã Aloysius, numa interpretação sem chama nem de boa memória, que em nada faz jus aos galões que o seu nome ostentam"...

Pardon?

12:46 da manhã  
Blogger Hitchhiker said...

Suponho que a admiração não seja para o peso do nome de Eunice Muñoz, facto com que todos concordaremos, decorrendo daí que terá estranhado alusão a uma má interpretação por parte da actriz. Uma representação insegura, sem chama, por vezes inaudível, levando o público a ter de se esforçar para ouvir e parecendo recorrer ao ponto. Se as circunstâncias podem ter sido passageiras no dia em que vi a peça? Com certeza. Ainda assim, a sensação generalizada das pessoas que viam a peça era essa. Esta não é a grande Eunice Muñoz.

12:13 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Excelente peça, com interpretação muito positiva (digo boa) de todos os elementos. A não perder. Esta historia á tão real como a nossa vida.Um duvida constante e um mau juizo perante os outros

10:25 da tarde  

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