domingo, abril 08, 2007

300


Baseado na banda-desenhada com o mesmo título, da autoria de Frank Miller, que por sua vez conta a resistência heroico-masoquista do rei espartano Leónidas e os seus trezentos homens face às hordas do Império Persa – mais sobrenaturais que humanas -, este 300 de Jack Snyder tem, diga-se, a decência de procurar efectivamente ser um decalque fílmico da sua fonte, apresentando as características mais comummente associadas ao género, todas elas acentuando o exagero e a fantasia. Quem de bom senso se interessar subitamente na Batalha de Termópilas de um ponto de vista intelectual e ansiando o máximo rigor histórico, decerto não considerará a referida BD uma fonte credível, mas quem se achar sentado na sala de cinema na expectativa de assistir a um retrato documental da batalha saberá o que é afinal um amargo de boca.

Para além das diatribes que se têm multiplicado (quase todas injuriando o realizador e a sua equipa pela grotesca animalização que fazem dos persas), importa perceber se, feita a proposta, vale a pena perder cerca de duas horas frente a uma hagiografia balofa dos heróis espartanos e seus temerosos aliados. E o que salta à vista é o absurdo processo de redução da psicologia verosímil dos homens - supostamente complexa – até se chegar a um resultado final em que não há indivíduos, mas homens que suportam o epíteto do seu povo: o que transparece dos espartanos é, pelo lado dos soldados, tudo o que não infrinja a sua intrépida condição de guerreiros patrióticos e sanguinários; os aliados arcadianos são, genericamente, receosos e desajeitados; e aos persas, enfim, foi dada a honra de ser não mais que uma paleta de criaturas vagamente humanas, ora demoníacas, ora irracionais, ora andróginas (veja-se o irreconhecível Rodrigo Santoro no papel de Xerxes I). Há, no entanto, uma inultrapassável comicidade nisto tudo se o espectador ousar não levar este filme a sério, quiçá a medida sensata a tomar caso se encontre de modo irreversível na sala.

Mesmo considerando que há uma nítida aposta no grafismo, de tal maneira que o filme pretende presumivelmente ser uma espécie de exibição de espectaculares sequências de acção, 300 não convence completamente como tour de force estético. Apresentando algumas semelhanças com Sin City (de que Frank Miller também é, a propósito, autor), 300 vive perdido entre a infantilidade da sua narrativa, a vacuidade psicológica das suas personagens e a sua violência gráfica. Removendo as cenas mais sangrentas – especialmente aquelas em que o sangue, assim que espirrado, parece coagular em pleno ar -, fica-se com um épico aprazível às crianças. Para os menos pueris haverá certamente trezentas outras escolhas mais frutuosas que assistir ao polémico 300.

Título:
300
Realizador:
Jack Snyder
Elenco:
Gerard Butler, Lena Headay, David Wenham, Dominic West, Vincent Regan, Michael Fassbender, Rodrigo Santoro, Andrew Tiernan, Andrew Pleavin, Tim Connolly, Marie-Julie Rivest, Tyler Max Neitzel e Tyrone Benskin.
E.U.A., 2006.

15 Comments:

Blogger B. said...

Não parece que saibas como encarar o filme, e talvez até o cinema em si. Estás à procura de quê ao ver o 300? Ou mesmo o Sin City, que dirias desse filme? São baseados em BD's fantásticas que vivem muito do grafismo e da violência. Em filme, não pode passar muito disso, seja como for, a história tem força e tu tens vontade de ver até onde vai e como vão morrer os bravos, e como os vão vencendo antes de glória da morte, mas não, tu parece que esperas deste filme, o que esperas quando vais à cinemateca ver Bergman, ou até Griffith, que tão bem retratou o Norte e Sul americano, e de uma forma MUITO pouco imparcial. Para o retrato que se trata, funciona. Só faltava termos que analisar sempre as parcialidades, tantos filmes do Vietname e da 2ª Guerra depois, ainda se fala disso? São histórias de quem as conta, nada mais, e neste caso, essa particularidade é gritante, porque se trata de uma BD gráfica e fantástica, não de uma obra histórica.

5:50 da tarde  
Blogger H. said...

Grande final de texto ;)
Também o achei bastante redutor, aborrecido até. É pena, de Sin City tinha gostado bastante...

8:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Mas que se esperava de um filme que procura ser fiel o mais possível à BD de Frank Miller???
Há que encará-lo e apreciá-lo (pesa neste ponto, o gosto pessoal...) de acordo com o seu propósito, que não é, seguramente, o de filme histórico. A meu ver, este post deveria, então, criticar a BD propriamente dita...

8:33 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Reparo agora, caro b., que tinhas escrito aquilo que tinha em mente para um comentário escrito com mais tempo...cumprimentos

Acrescento, talvez, que do ponto de vista estético que tu, exit1, pareces reduzir à exagerada violência, merece um olhar mais atento. O filme revela o grafismo próprio da BD até ao preciosismo das gotas de sangue "que parecem coagular".

11:06 da tarde  
Anonymous exit1 said...

1º- O tratamento visual do filme caminha para a fonte, a BD, mas as distâncias acentuam-se na medida em que é impossível esquecer, em momento algum, que 300 aborda um episódio histórico e, portanto, figuras cujo lugar na História é corroborado de maneira credível. Não se passa o mesmo em Sin City que, embora não completamente, me agradou. Sin City é a adaptação cinematográfica de uma BD cujo cenário é uma cidade puramente ficcional situada no noroeste americano;

2º- Há uma grande falha de interpretação: é preciso saber ler. Não me parece que tenha criticado 300 quanto à sua parcialidade (não creio, aliás, que tenha sequer alcance suficiente para ser julgado nesse parâmetro), mas sim quanto ao contraste entre o carácter plano das personagens e a sua existência remota mas irrefutável;

3º- Não há como esconder que a possível mais-valia do filme está mesmo no seu grafismo, que poderá marcar uma nova era para os épicos do cinema; nas entrevistas que li, o realizador revela através de trivialidades juvenis que o encanto vem mesmo da simplificação extrema das acções e vontades humanas que a BD de Frank Miller lhe proporciona. Embora persista um grande equívoco, que é considerar que eu devo fielmente atender aos propósitos aparentes do criador de uma obra no momento em que a cria, eu, mesmo que desnecessariamente, evito esse equívoco dando o benefício da dúvida ao realizador, e tentei inteirar-me do seu discurso directo. Esta concessão, que pratico, é um género de compaixão que me afasta do meu papel: criticar um objecto, tão-só;

4º- Devo eu, então, submeter-me cegamente aos propósitos do autor? Basta conhecê-los, viciação já suficiente. Deveria, então, eu dizer de mim para mim: «Ah, mas afinal o realizador quer retratar fielmente uma BD... É pois um súbdito de Frank Miller e, consequentemente, um artista menor. Logo quem devo eu culpar é Frank Miller, por obrar uma amputação duvidosa da complexidade do ser humano.» Ora o filme é realizado por Zack Snyder, e a responsabilidade artística de 300 recai sobre o mesmo. Zack Snyder não é um operário encarregado de traduzir mecanicamente uma outra noutra: é um realizador cujo lugar foi providenciar uma adaptação da BD de Frank Miller para um outro domínio da expressão artística. Com isto 300, o filme, adquire independência enquanto obra e remete apenas de modo complementar para a BD da qual se inspirou.

5º- Hoje vejo que a puberdade me afastou da BD. Bem sei que dentro da BD haverá uma variedade apreciável, talvez algum género haja que me agrade, mas cedi a outras literaturas. Agradeço ao leitor que me relembrou da correcção da minha escolha.

6º- É porventura este o meu desejo mais íntimo: que o b. se digne, magnanimamente, a ensinar-me a encarar de outra forma o cinema. Obrigado.

1:43 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Apesar de muito pouco conhecedor do género dentro das suas diversas vertentes, não me parece sensato julgar a BD pela amostra de 300. Como tu próprio afirmas, há uma variedade apreciável parecendo-me desnecessária a desconsideração por esta.
Criticas o filme relativamente ao seu conteúdo histórico. Como tu proprio disseste, nesse campo existem, pois, 300 outras obras e daí o meu espanto na escolha deste para tal.
Quanto à crítica ao realizador, creio que neste filme em concreto se comporta como um técnico excelente e arrisco-me a pensar que seria esse o seu papel. Não percebo o porquê de considerá-lo um súbdito de Frank Miller, mesmo que o seja de facto, só porque se manteve fiel à obra original. Aprecio o trabalho que fez, sendo que a substância da escolha feita me leva interrogar se o merecia.

Não me parece que, por se basear em cenários reais, o conteúdo não possa ser o mais fantástico possível.

2:37 da manhã  
Blogger B. said...

Quanto ao 4º ponto é já um bom começo para aprenderes a encarar cinema. É como veres o "perfume" e não fazeres uma ligação à obra inicial, porque quando os autores de filmes baseados num livro ou conto qualquer, o fazem de uma forma "demasiado" independente (se é que isso existe), são criticados por não seres fieis à obra, e as pessoas não identificam o que leram. Quanto ao 5º ponto, é bom que depois da puberdade te soltes para maiores voos, ainda assim, a BD é, ao contrario do que pensas, uma forma fantástica de conhecer o mundo e muitas vezes uma crítica social e política gritante, nunca vai deixar de ser importante lê-las, mesmo depois da puberdade, é como os miúdos que deixam de ver desenhos animados, e dizem que preferem muito mais filmes, isso é um erro. Quanto ao último ponto, farei como a alexandra solnado e editarei um livro (previamente dedicado a ti) em que ensino como encarar cinema, e com uma linha telefónica de apoio a quem frequentou as minhas aulas e não percebe na mesma o que escrevi.

10:09 da manhã  
Anonymous exit1 said...

Caro anónimo

Quanto à BD, não foi minha intenção censurar quem a consome. Limitei-me a relatar o momento em que, por diversas razões, me afastei da BD (que até então consumia ferozmente). Esse momento simplesmente coincidiu com a chegada em força do dito período. E sei, em boa verdade, que a BD não se destina exclusivamente às crianças e adolescentes, e que há BD de reconhecidos méritos essencialmente lida por gente adulta. Pessoas que naturalmente respeito. No entanto, e tendo eu tempo limitado para toda e qualquer actividade, tomei legitimamente uma escolha que passa por não perder tempo a ler algo que considero menor (mas não despiciendo) em prol de outras literaturas. Escolhi um caminho que me permite, no meu entendimento, aguçar o meu espírito para as letras, que me são mais queridas. Outros farão outras escolhas; eu fiz esta, sem violento desprimor para a BD.

Quanto ao realizador, receio que a minha ironia não tenha sido clara. Queria demonstrar que, na minha opinião, Zack Snyder não é um técnico de edição de imagem, nem o responsável pela direcção de actores nem um electricista. É quem tem a última palavra sobre o que surge na tela, e quem (e isto é fundamental) assume a responsabilidade de querer fazer um filme, o 300. Só depois, de acordo com as entrevistas, pediu opinião a Frank Miller. Na essência, ele é a figura sobre quem recai os possíveis méritos e deméritos deste filme, desempenhando Frank Miller semelhante papel em relação à sua BD. Só quis reforçar isto no meu comentário anterior porque o anónimo (penso ser o mesmo, se não for apresento desde já as minhas desculpas) indicou que era mais apropriado criticar o autor da BD, quando é do filme que eu falo.

Quanto à questão dos cenários reais vs. fantasia, subscrevo o seu raciocínio. É claro que o conteúdo pode ser o mais fantástico possível, ou o menos fantástico possível, ou o que quer que seja que vá na mente do realizador e dos argumentistas. Tanto pode que, no caso de 300, é. Em rigor, qualquer adaptação de um cenário real terá a sua quota parte de fantasia, em maior ou menor grau. No entanto, compete depois ao nosso sentido estético julgar se essa distorção nos é aprazível ou não, tarefa do entendimento que é puramente subjectiva, mesmo que sustentável.

Finalmente, no meu artigo não me referia a 300 outras obras acerca de eventos históricos ou mesmo a Batalha de Termópilas. Era para ser entendido num sentido mais lato – existem, a meu ver, trezentas outras escolhas nos mais variadíssimos domínios geradoras de maior prazer que assistir a 300. E isto pode incluir ler um livro, ver um (outro) filme, ouvir um cd, ir a uma exposição, ir, quem sabe, à pesca (note-se, para efeitos futuros, que respeito quem vai à pesca).

Caro b.

Quanto à BD, para além de reafirmar o que já dirigi ao anónimo, nota que pões em perigo, de forma peremptória, milhares de pessoas que se prestam à insanidade de não ler BD nem ver desenhos animados. Dizes, com toda a naturalidade, “isto é um erro”, sem qualquer sustentação – um erro imputável a toda a gente que não faz o que recomendas. É difícil compreender a facilidade que tens em fazer juízos, digamos assim, universais. Adultos de todo o mundo, recomecem a ler BD e a ver desenhos animados, porque o “tio” b. afirmou que tal era errado.

Analisando bem o teu 1º comentário, bastante apropriado na sua globalidade, saltam à vista as duas primeiras orações, reveladoras de uma simbiose entre sapiência e agressividade, num género de manifestação bastante comum nestes meios de comunicação tremendamente impessoais. Ao cabo de ler um artigo meu sobre o 300 pões em causa, com toda a pompa, o meu discernimento enquanto crítico de cinema. Espanta-me o que consegues dizer a partir de uma base tão escassa. Terás eventualmente alguma formação no ramo; se sim, ainda bem, pois que respeito e até invejo quem tem. Mas isso não te exime de fundamentar, de modo seguro, o que te leva a tecer afirmação tão categórica. Este tipo distinto de ataques insensatos leva-me, invariavelmente, à ironia, pois que tendo a achar infantil esse comportamento.

9:32 da tarde  
Blogger B. said...

Caro pupilo. Eu tive tanta pompa em criticar muitas das coisas que escreveste (tal como concordei com muitas outras anteriores a esta crítica), como tu tiveste para criticar quem fez e como foi feito o filme 300.

Seja como for, o que me deixa preplexo, é que alguém com o teu aparente conhecimento geral de arte, consiga fugir tanto da realidade que está a criticar neste filme. Sou bruto, é um facto, mas ao mesmo tempo sou sincero e detesto pessoas burras, não te considero burro pelo que tenho lido teu, mas aqui, senti-te muito limitado às tuas raízes, talvez literarias como dizes, mas um demasiado literario, se é q isso existe, e se é q se pode tornar um defeito. Há mercado para tudo, e gostos são gostos, mas a tua posição tem de ser imparcial, e se criticas um filme, a tua opiniao pessoal tem de ser pouco relevante, e aí falhaste, acho que não gostaste nada do filme, e tentaste tudo para o deitar abaixo. Não concordei com isso nem sequer com a argumentação que usaste para esses mesmos apontamentos.

Quanto à falta de argumentação para as BD's e desenhos animados, não preciso ir muito longe, embora desde sempre que pouca coisa foi realmente escrita para crianças, já desde os Grimm...

Infantilidade está para ti, como tranquilidade está para o paulo bento.

Quanto ao realizador, já o rodriguez no sin city teve problemas com o frank miller, ele é muito chato, e já muitos quiseram passar para a tela os filmes dele, mas não queriam ceder a ele, logo, não havia nada a fazer e a ideia ficava por terra. Se estes o fizeram, acredita, muitas das palavras finais foram do frank miller e não de qualquer um dos aventureiros realizadores que arriscaram o nome.

Seja como for, continua a escrever, não sou assim tão chato e nem sequer tens de ter a mesma opinião que eu claro, mas quando não tiveres (tambem deves ser assim), terás de argumentar com algo palpável, e dentro da realidade que criticas. Se não achasse que tu e os teus colegas escreviam boas críticas, não passava aqui para ver o que havia de novo.

Fala do "The Fountain", estou muito curioso para saber o que têm a dizer desse filme.

Até já.

12:04 da manhã  
Anonymous exit1 said...

Indo directamente ao essencial:

1º- Apenas me referi à pompa com que começaste o teu comentário, não ao desenvolvimento do comentário em si, que sinceramente aprecio. Criticares muitas das coisas que escrevi não me gera qualquer tipo de indignação, diria mesmo que me regozijo quando posso discutir estes assuntos. Eu critico o filme 300, dando-lhe uma apreciação no cômputo geral negativa (tenho lido críticas que são autênticas descomposturas, ao pé delas até acho a minha... branda) , mas coíbo-me de fazer uma declaração similar para o realizador, que seria qualquer coisa do género: “Talvez Zack Snyder não saiba encarar o cinema e o papel do realizador”. São generalizações abusivas.

2º- Não percebo em que medida é que as minhas raízes literárias terão tido efeito tão visível na minha crítica a 300. Não compreendo mesmo. Só abordei essas mesmas raízes quando a discussão se descentrou ligeiramente, quando fui instado a criticar a BD e não o filme.

3º- Qual é a posição que pensas que devo ocupar? Qual é a tua visão do papel do crítico? Ou melhor, o que é um crítico para ti? Porque isto que dizes, e passo a citar “Há mercado para tudo, e gostos são gostos, mas a tua posição tem de ser imparcial, e se criticas um filme, a tua opinião pessoal tem de ser pouco relevante, e aí falhaste, acho que não gostaste nada do filme, e tentaste tudo para o deitar abaixo.” Parece-me francamente insustentável. Será que sugeres que a opinião pessoal do crítico deve ser pouco relevante para a crítica que ele elabora? Que um crítico, após uma análise ponderada sobre um qualquer objecto artístico deva, contrariamente ao resultado do seu espírito crítico, ter sentimentos dissonantes? Um crítico não é um jornalista. Há aqui uma grandíssima confusão: ou tu não estás a ser explícito, ou eu não sei ler.

4º- Ainda não vi o The Fountain, mas planeio ver. O que achas do filme?

1:35 da manhã  
Blogger B. said...

O crítico tem de analisar profundamente um filme, desde a estrutura narrativa, ao grafismo, passando pelo desempenho dos actores, bla bla bla bla. A sua opinião propria não deve ser clara, nunca. Isto na minha opinião, senão um crítico não era um crítico, mas sim um comentador. Um bom exemplo é eu fazer uma crítica do Babel, que só ia dizer bem quase, poucos seriam os pontos negativos no filme, e seja como for, eu não gostei muito do filme, a minha opinião pessoal diverge do que sei que o filme vale. Esse instinto é o gosto, e deve ser escondido, e por vezes não tem grande razão de ser, e o que acho da tua crítica, é que te aconteceu isso, e tentaste racionalizar o facto de não teres gostado do filme. E por vezes isso não é possível, sobrando razões que não são de todo razoaveis. Sim, sei que houve muita crítica a esmagar o filme, mas os críticos, principalmente os Portugueses, são do mais tosco que há, são extremamente parciais, e acima de tudo, muito maricas. Têm medo muitas vezes de assumir a qualidade de um filme, se isso for contra a maioria dos críticos que vão também debruçar-se sobre ele.

O The Fountain, de um dos melhores realizadores do momento, desta nova geração, é um dos filmes mais marcantes que vi. De sempre. E digo-o sem medos, e quando vejo os críticos a dar-lhe aquele quadrado preto do "a evitar" arrepia-me a falta de sensibilidade deles. Ou coragem. Não sei classificar, mas vê, e quando vires faz mesmo uma crítica. Porque gostava de o discutir.

10:58 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Não querendo, de todo, tornar cansativa esta discussão...

Antes de mais, começo por desfazer um engano meu (pura confusão...) em ter chamado chamado técnico ao realizador quando o termo pretendido era narrador. Isto porquê? Porque neste filme em concreto, Zack Snyder não aparenta ter uma visão sua do "mundo" particular a transmitir. Apenas parece apresentar-se com o propósito de contar uma história, não sendo uma ideia de sua autoria. Exige-se-lhe, então, que a conte bem contada e, então, agora correctamente, aplico-lhe a designação de excelente técnico.

Quando digo que me parece mais indicada a crítica a Frank Miller do que a Snyder é somente porque vejo que o que criticas é a história propriamente dita. Podes criticá-lo quanto à necessidade de adaptar esta obra para o cinema, mas quanto à adaptação feita não vejo formas diferentes de o fazer com tanta mestria. Devias adequar as tuas críticas e endereça-las sobre quem recaiem as diferentes responsabilidades.

Relativamente "às 300 outras obras..." tens razão. Foi puramente incorrecta interpretação da minha parte. Contudo, permanece a minha convicção de que não irias convenientemente preparado para "encarar" o 300, independentemente do teu gosto pessoal.

6:50 da tarde  
Blogger exit1 said...

Este comentário foi removido pelo autor.

8:44 da manhã  
Blogger exit1 said...

Anónimo:

De acordo. Só uma nota: eu não endereço a minha crítica ao realizador nem pretendo endereçá-la ao escritor. A minha crítica é endereçada ao objecto - a 300, o filme.

B.:

Pressenti, a determinada altura, que a tua perspectiva sobre a minha crítica caminhava para o que agora expões muito mais claramente: que eu, por manifestação do instinto, senti de modo inapelável que o filme me desagradava e, consequentemente, parti na busca de uma justificação plausível, a posteriori, dos verdadeiros motivos por detrás desse juízo. Isto acontecerá, prevejo eu, eternamente na cabeça de qualquer observador de qualquer objecto, mas - e isto é um processo, uma refinação – há muito que procuro desenvolver o máximo espírito crítico, num desejo profundo de, idealmente, me sentir vazio, neutro e aberto. E cada vez mais persigo, no domínio das artes, um acordo entre o meu discernimento e o meu gosto.

Isto é: durante o visionamento de um filme vou-me munindo do maior conjunto possível de observações e considerações resultantes do cruzamento entre a informação que absorvo do filme e os meus próprios critérios. Critérios esses que serão inevitavelmente meus, mesmo que largamente herdados de outros meios. Dentro destes critérios encontram-se tanto os mais académicos (como os que referiste) como os menos, pois que sou adepto da crítica de tom ensaístico. E o que se passou foi que, pese embora a existência de impressões, mentalmente apliquei esse processo e daí saiu uma recensão. Presumes que eu, sem saber porquê, não fiquei agradado com o filme e daí parti para uma auto-justificação desesperada. Não sei até que ponto eu me conheço, mas sinto honestamente que não foi isso que se passou. Este tipo de encadeamentos não devia ser explicado mas, se tal é necessário, faço-o. O gosto que adquiro por uma obra é vagamente instintivo; por vezes levo dias para perceber verdadeiramente se gostei ou não de um filme ou de um disco, e no caso de livros esses dias podem alargar-se para semanas.

Maior é o meu espanto quanto ao teu reparo quando descubro, acidentalmente, que num comentário ao artigo de Zonebrill “Marie Antoinette”, afirmas logo no início «Não percebi bem se afinal gostaste ou não do filme.», como quem procura essa informação e não como quem a censura. Entre esta pergunta e este excerto do teu comentário, «[...] A sua opinião própria não deve ser clara, nunca. Isto na minha opinião, senão um crítico não era um crítico, mas sim um comentador. Um bom exemplo é eu fazer uma crítica do Babel, que só ia dizer bem quase, poucos seriam os pontos negativos no filme, e seja como for, eu não gostei muito do filme, a minha opinião pessoal diverge do que sei que o filme vale. Esse instinto é o gosto, e deve ser escondido, [...]» há qualquer coisa que se perdeu no caminho.

Acrescente-se que, na sua essência, não me revejo na tua definição de crítico. Mais precisamente, incorporo no meu conceito a tua fundamentação do crítico ideal mas como suporte e fonte, não como dever e fim. Porque para mim a crítica artística desempenha um papel tão importante para a Arte como, paradoxalmente, a própria Arte, entendo que o crítico é vão se também não opera subjectivamente e enquanto indivíduo sobre os objectos e mentiroso se disser que a avaliação de uma obra, à luz de um determinado parâmetro, está absolutamente isenta de qualquer espécie de cunho pessoal. Isto é verdade quando se pretende valorar um parâmetro. Admitamos, por exemplo, que um crítico literário procede à análise da estrutura externa de um texto. Recorrerá, aí, a certas ferramentas apreendidas geralmente durante a formação académica para chegar a conclusões finais acerca da natureza dessa estrutura. No entanto terá que, se efectivamente desejar usar esse contributo para uma análise final da obra, valorar essas conclusões. E, que eu saiba, não existe uma tabela universal e rígida que faça isso por ele. Se não quiser ficar num impasse, usará eventualmente o seu próprio sentido estético que é, mesmo quando largamente copiado de outrem, seu e só seu. Creio que o mesmo se passará, analogamente, para o crítico de cinema que se debruça sobre o grafismo de um filme ou a sua direcção de actores, procurando medir o valor do filme. Este investimento do sujeito no acto da crítica explica por que razão o crítico assina sempre os seus textos, sabendo que a acumulação servirá para o leitor criar um perfil do autor enquanto crítico, identificando-o. Mais: se atentarmos na Filosofia, onde a crítica ganhou autonomia, veremos que os críticos ensaísticos, regra geral, não escondem que, no fundo, a crítica formal que construíram é tanto uma análise desinteressada quanto uma emanação do espírito.

Não obstante, aceito que um artigo de opinião (ou o que faça um comentador) não é uma crítica artística, o que não invalida que, em última instância, as duas formas dependam do juízo individual. Outro assunto, esse mais discutível, tem que ver com a pessoa gramatical que o crítico deve empregar.

Importa esclarecer que abordo acima o tal tipo de crítica de tom ensaístico que referi, largamente difundido pela imprensa cultural. O que enunciaste aproxima-se bem mais do crítico que publica uma obra especializada, do que do crítico que sabe de antemão do espaço limitado que se lhe deparará. Cada coisa no seu lugar: se eu decidisse fazer análises de 30 páginas A4 no Espaço de Crítica Artística, discorrendo paciente e profundamente sobre determinado objecto, poderia com toda a segurança dizer as maiores barbaridades e insultar toda a gente a torto e a direito que nada me aconteceria, pela simples razão de que a esmagadora maioria das pessoas saltaria da primeira página para a última (se é que saltaria sequer). Tenho sérias dúvidas que haja uma percentagem considerável de pessoas que leia, na blogosfera, recensões críticas com mais de 900 palavras.

Agora que penso, receio que alguém aterre agora nesta parágrafo sem haver lido os anteriores.

9:33 da manhã  
Blogger B. said...

Realmente perdeste-te um pouco na resposta. Mas eu não saltei parágrafos, até porque seria má educação como o Almodovar, visto ser endereçado a mim.

Quanto à Antoinette, isso é sinal que é uma boa crítica, porque eu nunca disse que não quero saber se gostam ou não dos filmes, mas nas críticas, não é bom ser óbvio isso, a não ser quando o filme é excelente e gosta-se muito, aí não se pode esconder, mas no outro caso, em que o filme é bom e não se gosta, temos realmente de tentar não mostrar isso, já dei o exemplo do Babel e repito, já falei 1000 vezes sobre o filme, como comentator, e não crítico, e nunca me ouviram dizer mal do filme, disse tudo de bem, mas afirmei não ter gostado muito.
Na Antoinette, eu quis saber se ele tinha mesmo gostado, porque é um filme do qual gosto de falar directamente com o gosto ligado ao filme em si, porque acho que não pode ser vivido de outra forma, esse especificamente, visto ser muito pouco filme, e eu ter detestado faz com que goste de o debater, tanto como quando gosto e alguém não gosta.

Tudo é fácil quando todos gostam.

Quanto à minha definição de crítico, pode ser desumano conseguir abstrair tudo o que sentimos ao ver o filme e friamente analisá-lo, seja como for, acho ser a forma ideal para o fazer.

Boa Continuação de críticas

Até já.

11:48 da manhã  

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