terça-feira, outubro 24, 2006

The Eraser

“We think the same things at the same time
There are too many of us
So you can't count

I feel me slipping in and out of consciousness”

Vencedor do prémio de melhor artista nos Digital Musica Awards, The Eraser é o primeiro trabalho a solo de Thom Yorke, vocalista e principal figura dos britânicos Radiohead. Não tenhamos ilusões. Thom Yorke é o vocalista dos Radiohead. Não o renega, não o tenta disfarçar, não se descola de uma obra que é maioritariamente sua. E não só sua, é verdade. É também muito de Nigel Goodrich, o produtor que OKComputarizou os Radiohead. Mas não seja por isso. Nigel Goodrich também produz The Eraser.

Produz. The Eraser não é uma obra épica, um manifesto de bom gosto de Rock-progressivo e Electrónica como OK Computer. Estará, porventura, mais ligado a Hail to the Thief. Trata-se de um cd à imagem de Yorke. Discreto, como ele confessou desejá-lo. O primeiro trabalho desde Kid A em que Yorke parece conseguir desprender-se de algo que canta em “Atoms for Peace”: “No more talk about the old days / It's time for something great”. The Eraser não é o álbum de alguém conformado. É o álbum de alguém que já não precisa de gritar.

De facto, os Radiohead são um dos (senão a caminho de O) marcos mais respeitados da música contemporânea. Fruto da sua inegável criatividade e qualidade musical (Kid A, Ok Computer, Hail to the Thief) e da sua vertente intervencionista politica, ambiental e social. Assim, e não tendo uma personalidade exuberante e desmedida como grande parte do panorama musical britânico, Yorke oferece-nos o que muitos não esperariam. A sua intimidade. The Eraser é um disco intimista, um conjunto de canções e de melodias. Electrónicas, bem entendido.

Também ao contrário do que já aconteceu com os Radiohead, especialmente no inicio, guitarras são algo que é difícil ouvir neste cd. Mesmo um piano só será distinguível mais para o cair do pano da sequência de musicas. Um pouco de beatboxing, backvocals aqui e ali, e muito, muito trabalho de computador, de samples e trabalho à volta da Electrónica. Quanto às letras, o Thom Yorke de sempre. Irreverente, meio perdido. Entre o compreensível e o mundo dele, fica uma luta constante com a sociedade.

Tudo começa com "The Eraser", onde canta na sua voz cristalina: “The more you try to erase me, The more that I appear”. Sempre em torno da sua voz, que se torna o principal instrumento, segue-se “Analyse”, uma das melhores faixas, onde a nasalidade da sua voz remete a melodia para os tempos de músicas como “Lucky”. “The Clock”, “Black Swan” e ”Skip Divided” serão os temas menos conseguidos, ainda que o último contenha o que de melhor a voz de Yorke tem para oferecer, em arrancadas a ritmo imprevisível. “Atoms for Peace” é exercício melancólico onde se fala de grandeza e “And it rained all night” é rainha da assonância como confessa Yorke ao cantar: "So I give in to the rhythm“. Em "Harrowdown Hill" canta-se um exercício politico em que se diz ”Don't ask me, Ask the ministry”, na melhor faixa, com pormenores finais do melhor Radiohead. Tudo acaba com “Cymbal Rush”, despertar maquinal, onde a pureza da voz contrasta com a agressividade da modernidade.
Como diria o Y sobre Sérgio Godinho, “Irrepreensível, mas não memorável”.
Título: The Eraser
Autor: Thom Yorke
Nota: 7/10

8 Comments:

Blogger Dorian Gray said...

Não sei se concordo com o The Eraser estar mais ligado ao Hail to the Thief. Parece a continuação lógica da música "Pulk/Pull Revolving doors" do Amnesiac...é o mundo na cabeça do York que estamos a ver aqui no Eraser, tal como vimos naquela canção e, por vezes, naquele albúm.

Sim estão lá as mensagens políticas do Hail to the... mas parece-me que era o album dos Radiohead, caso fosse dos radiohead, que mais facilmente se seguiria ao Amnesiac se eles tivessem seguido esta linha do computador, sample e electrónico.

Mais...dizer " ao contrário do que já aconteceu com os Radiohead, especiamente no ínicio, guitarras é algo dificil de ouvir neste cd..." parece-me um grande erro (sim, eu sei, parecem-me muitas coisas, mas eu sou um tipo opinativo). O The Bends tem guitarras (algumas acústicas) e o OK tb as tem. Depois é que elas tendem a desaparecer....

Concordo plenamente com o 7 e com o facto de Harrowdown Hill ser a melhor faixa do disco (é uma música que está em grande destaque no meu IPod).

Hasta

11:54 da tarde  
Blogger Hitchhiker said...

O que pretendia dizer com essa frase era tão somente que quem os viu surgir com o cd The Bends, essencialmente Rock, com muita guitarra, não pode deixar de achar curioso (se bem que muito positivo) esta inversão no sentido de construção do album.

No fundo, concordamos os dois, os Radiohead no inicio (como digo no post) estavam muito centrados na guitarra como instrumento base e isto tende a desaparecer, até a este cd onde quase não está presente.

Concordo contudo com a presença destas no Ok Computer, muito fruto da sua necessidade para o ambiente épico do Pós-Rock Progressivo.

Quanto à sequência de cds de Radiohead que propõe, é de facto uma boa opinião. Talvez demonstre a vontade musical de Yorke face à dos seus colegas da banda.

Obrigado pelos comentários. Discutir é a única forma de evoluir na percepção das coisas.

1:02 da manhã  
Blogger exit1 said...

Sem querer participar na discussão acerca do The Eraser, deixo apenas três notas relativas ao artigo, aos comentários e aos Radiohead:

O leitor desprevenido e desconhecedor da discografia da banda ficará com a impressão que The Bends é o seu primeiro álbum, sendo que o Pablo Honey, apesar de quase renegado por elementos da formação, não deixa de ser o primeiro (e com guitarras);

Quanto à discussão da utilização de guitarras, é impreciso dizer que elas "tendem a desaparecer". Se, de facto, o Kid A e o Amnesiac as eliminam, o Hail To The Thief não. Embora estejam por vezes ligadas a sintetizadores e outros instrumentos digitais, as guitarras estão lá. Para além disso, do que foi possível entrever do próximo álbum dos Radiohead, a editar em 2007, as guitarras regressarão;

Finalmente, é conhecida a tensão artística existente, em vários momentos, entre os elementos da banda, especialmente entre Thom Yorke, John Greenwood e Ed O'Brien, pelo que a banda não se limita a reproduzir as ideias de Thom Yorke e Nigel Godrich, ideia que perpassa o post inicial.

11:05 da manhã  
Blogger Hitchhiker said...

O que perpassa o post original, no que ao seu comentário diz respeito, são tão somente duas ideias. A primeira, a de que Yorke é a figura principal dos Radiohead, facto que dificilmente negará como bom conhecedor que o sei ser. A segunda, a de que Goodrich teve, e tem, um papel fundamental na vida sonora da banda. Eles próprios o reconhecem, o papel e a fama de Goodrich é conhecidissimo e sua influência sobre a banda e outras faz dele um dos produtores mais conceituados do momento. O facto de trabalhar com Yorke ser algo que não pode ser descurado, foi tudo o que tentei transmitir, ainda que a minha inexactidão textual não mo permitisse como desejaria. Aliás, se for revisto o meu comentário anterior, se verá que defendo a existência de opiniões adversas dentro do grupo, tendo este apenas a lucrar musicalmente com isso. Finalmente, ninguem quis passar por cima de Pablo Honey, nem fazer crer que não seria o primeiro cd da banda. Simplesmente considero-o um cd um pouco a parte. Ainda que o julgue coerente na sequência evolutiva da banda, não me parece ser sequer chamado para algumas questões evocadas, nomeadamente a ascensão da Electrónica como força motriz no grupo. Mais uma vez, obrigado a todos pelo contributo do comentário e do debate, uma das poucas formas possíveis de contrapor a inércia cultural corrente.

10:14 da tarde  
Blogger exit1 said...

Subscrevo. Ainda em relação ao assunto Pablo Honey, reportava-me apenas a uma questão de clareza. Uma coisa é dizer-se que é um cd um pouco à parte, outra coisa é dizer "quem os viu surgir com o cd The Bends", sem citar o Pablo Honey. Apenas queria apontar que quem nada souber pode ser levado ao engano.

12:35 da manhã  
Blogger AL said...

Esta discussão é bastante interessante, e levou-me a ouvir com mais atenção o cd em causa. A minha conclusão é em tudo similar à primeira impressão: é uma obra de produção, não musical. É um fabuloso exercício de produção musical, não algo que abra brechas no panorama musical, ou que evoque novos caminhos. É interessante. Tem qualidade incontornável. Mas tem-na essencialmente na produção, edição, mix, whatever... musicalmente é... irrelevante.

2:28 da manhã  
Anonymous KoAN said...

Já estava na hora!
Que grande album :)

7:45 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

"Apenas o que posso dizer (como fã de Radiohead, e tendo em Thom meu ponto em comum) é que achei esse cd uma extesão- ainda que minimizada- de Amnesiac... Mas sem mais de longas, preciso confessar que desde que o ouvi, deixei "atoms for peace" possuir meu cérebro, adonar-se dele...
Pra mim, a canção mais intensa de The Eraser...
É uma fuga e um retorno, simultâneos...
Mas certamente um cd pra poucos, pra quem realmente entende essa alma tão criativa de Thom Yorke..."

Cléo Medeiros- Santa Maria/RS

11:03 da tarde  

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