terça-feira, março 20, 2007

Stabat Mater


A Associação Portuguesa de Críticos de Teatro atribuiu o Prémio da Crítica, relativa ao ano de 2006, ex-aequo a Maria João Luís e João Lagarto pelas suas interpretações nas peças de teatro Stabat Mater e Começar a Acabar, respectivamente. A primeira está de novo em cena e a oportunidade de ver o espectáculo tornou-se uma prioridade. Não só pelo prémio conseguido mas, por toda a crítica da imprensa em geral e, também pelo testemunho de outras pessoas. A reposição está em cena no mesmo local da primeira encenação, no Convento das Mónicas, e depois de lá estar fica-se com a noção que este monólogo àquele espaço pertence, perdendo muita força se encenado num auditório qualquer.

Stabat Mater conta a história na primeira pessoa de Maria. O texto de António Tarantino não é um simples monólogo que nos entretém durante algum tempo numa sexta-feira à noite. É uma peça de teatro que, por acaso, só tem uma personagem em palco mas que não precisa de mais nenhuma presença física para nos captar a atenção. O monólogo, enquanto texto, tem uma série de características que o tornam muito bom: a personagem Maria está definida na perfeição e, no entanto, está longe de ser uma figura plana; a escrita formal é tão brejeira como a prostituta Maria, sem nunca ofender; os relatos da sua vida e de outros aliam a comédia à possível veracidade dos factos: e a evolução do texto, principalmente do lado dramático, sustenta todos os pormenores que nos podem encantar mas que caíriam no ridículo sem esta evolução. Um destaque tem de ser dado à comparação desta Maria que não sabe de um filho incompreendido pela sociedade com a personagem bíblica, a Virgem Maria.

Não interessa falar muito da personagem Maria dissociada da actriz Maria João Luís e, posteriormente, comentar a interpretação da mesma. Se é verdade que as personagens que assistimos em peças de teatro são aquelas, naquele momento que os actores estão a interpretá-las, não é menos verdade que as personagns existem, anteriormente, no papel e, poderemos sempre por em causa a interpretação do profissional. Esta “descolagem” requer um distanciamento que, provavelmente, nos torna mais exigentes mas, ao mesmo tempo, poderá afastar-nos do objecto artístico. Para mim, esta é a prova que distingue os actores excepcionais dos outros. Maria João Luís não nos dá hipótese de criarmos qualquer distanciamento. Impõem-nos uma Maria extremamente verosímil. Uma prostituta que diz merda, cabrão, enrabar e todas as asneiras possíveis como se o fizesse desde sempre. Uma prostituta que descreve as mais caricatas situações com uma frieza arrepiante. Uma prostituta que sofre o desaparecimento de um filho a quem deu tudo o que podia. Uma prostituta com preconceitos. Uma prostituta que vive. Ou melhor, uma ex-prostituta que viveu enquanto tinha um filho.

A encenação de Jorge Silva Melo é bastante discreta. Está presente mas é feita para enaltecer o trabalho da actriz. Um desenho de luzes, alguns silêncios, uma restrição de espaço a Maria são os elementos mais visíveis do exercício do encenador. Contudo, sente-se que o seu principal objectivo foi o trabalho de actor. Jorge Silva Melo tem a sua quota parte de sucesso na fantástica construção da personagem Maria.

A imperdível Stabat Mater vai estar em cena no Convento das Mónicas até ao dia 24 de Março. Apesar de algum desconforto que a improvisada sala possa gerar, repito, é neste espaço (uma Capela) que a peça ganha vida necessária para ser considerada um dos melhores espectáculos de teatro do ano de 2006.
Título: Stabat Mater
Texto: Antonio Tarantino
Tradução: Tereza Bento
Com: Maria João Luis
Cenografia e figurinos: Rita Lopes Alves
Luz: Pedro Domingos
Encenação: Jorge Silva Melo
Uma produção Artistas Unidos

2 Comments:

Anonymous rui said...

numa palavra: Genial!

11:37 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

vou ver este espectaculo nesta noite de sexta feira dia 19out em faro.
a tua critica contribuiu, de alguma forma, para que eu a quissese ver.
a ver se a forma se concretiza.

7:06 da tarde  

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