sábado, abril 15, 2006

Explicações de Português

"Quando um palavrão é usado literalmente é repugnante. Dizer «A sanita está entupida de merda» ou «Tenho uma verruga na ponta do caralho» é inadmissível. No entanto, dizer que um filme é uma «merda» ou que comprar uma casa em Massamá não lembra ao «caralho», não mete nojo a ninguém. Cada vez que um palavrão é utilizado fora do seu contexto concreto e significado, é como se fosse reabilitado. Dar nova vida aos palavrões, libertando-os dos constrangimentos estritamente sexuais ou orgânicos que os sufocam, é simplesmente um exercício de libertação. Quando uma esferográfica pode ser puta («... não escreve!»), desagrava-se a mulher que se prostitui. Quando um exame de Direito Administrativo é «fodido», há alguém, algures, deitado numa cama, que escusa de se foder. "
Miguel Esteves Cardoso in [Gosto muito de palavrões] in Explicações de Português
Textos como este se podem ler num livro que junta textos publicados por Miguel Esteves Cardoso entre 1983 e 2001, no Jornal Diário de Notícias, Revista K e, na maioria, Independente. Com alguns textos "trabalhados" a partir do original, chega-nos esta colectânea de pensamentos, reflexões e demais do autor, divididos estruturalmente em A única natureza é a humana, Ai Portugal!, A partir de António Vieira Sermoens, & Esclarecimentos, Verbos irregulares e outros, Coisas nossas e Uma língua, todos eles capítulos do livro em causa.
O que Miguel Esteves Cardoso nos apresenta são tanto explicações de português como explicações do português. É entre estes dois parâmetros que o autor vai pensando o pensar português, sempre com um elegante, mas acima de tudo exigente, manejar da língua portuguesa.
Em A única natureza é a humana, curta dissertação de três pontos sobre a humanidade, toma posições por vezes arriscadas, contrariando o que de bom tom de vem pensando, num registo de humor inteligente que não nos prepara para o que podemos ainda vir a ler. Ai Portugal! envereda pelo mesmo estilo, mas tem um destinatário mais preciso. Pegando, subtil mas acutilantemente, em certas particularidades do povo que também protagoniza, Esteves Cardoso sabe como ninguém examinar.
Segue-se algo que, não pondo em causa o interesse, assassina a fluência e o ritmo de extremo humor inteligente que a reunião de textos demonstrava. A partir de António Vieira Sermoens, & Esclarecimentos, comprova a qualidade de escrita do autor, mas destoa numa obra que o não merecia. Em Verbos irregulares e outros, a verdadeira essência do título, uma demonstração de bom escrever num exercício altamente pessoal e, nos dois últimos capítulos, Coisas nossas e Uma língua, algumas das maiores pérolas do humor português. Para saber rir e saber escrever. Para acabar, um último excerto que o comprove.
"Os palavrões supostamente menos pesados, como chiça e porra, escandalizam-me. São violentos. Enquanto um pai, ao não conseguir montar um avião da Lego para o filho, pode suspirar, após três quartos de hora, «Ai o caralho...», sem que daí venha grande mal à família, um «Chiça!», sibilino e cheio, pode instalar o terror.
Quando o mesmo pai, recém-chegado do Ki Market ou do Aki, perde uma peça para a armação do estendal de roupa e se põe, de rabo para o ar, a perguntar «Onde é que se meteu a puta da porca...?», está a dignificar tanto as putas como as porcas, como as que acumulam as duas qualidades."
Título: Explicações de Português
Autor: Miguel Esteves Cardoso
Assírio e Alvim, 2001
Nota: 6/10

2 Comments:

Anonymous s said...

'tão não é que esta merda é d mm porreira?...foda-se, sim sr, este blog destaca-se, que há para aí deles que não valem um caralho!

1:05 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

O LIVRO EXPLICAÇÕES DE PORTUGUÊS REFERE A DADA ALTURA TRÊS CAFÉS COM O NOME DE PORTUGAL.
O AUTOR DEVE DESCONHECER QUE EM ALCOBAÇA TAMBÉM EXISTE UM QUARTO.

JOSECONTEIRO@GMAIL.COM

12:54 da tarde  

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