Vivo #1 – Daft Punk no Festival do Sudoeste (III)

A primeira sequência de sons é retirada de Encontros Imediatos do Terceiro Grau, de Spielberg, e recontextualizada para introduzir os espectadores num mundo onírico de comunicação musical e visual com uma forma de vida (a deles) diferente da humana. O aperitivo depressa se esgota e a primeira concatenação de elementos vocoderizados surge: um “Human Robot” eléctrico a galopar até atingir velocidade suficiente para a introdução de uma batida vigorosa. É a afirmação prévia da sua natureza artística (numa rara entrevista no Japão afirmam-se, de certo modo, como seres cibernéticos com um coração que bombeia sangue) mas também uma declaração de intenções relativa à encenação e à música. O Human After All, para alguns uma verdadeira sátira aos mecanismos de criação musical, ocupa os primeiros minutos, visto que suporta melhor que nunca o conflito entre a emoção, a tecnologia e a criação musical. Há um constante degladiar entre “Technologic” e a teia de acções que dita, a pretensão de reinterpretar o rock em “Robot Rock” e a emancipação última pretendida pelas máquinas em “Human After All”. E que melhor maneira de condimentar tudo isto do que com “Oh Yeah”, a acrescentar alguma sujidade e prazer?
Seguiu-se a inclusão do rectângulo mágico nesta profecia tecnológica com a aparência de hino de estádio (“Television Rules The Nation”) e a intercalação com a inesperada “Crescendolls” (curiosamente, esta música coincide com a ascensão da banda alienígena ao prime time televisivo em Interstella 5555), mas o melhor estava para vir: uma reinterpretação de “Too Long” imediatamente seguida de uma notável progressão a instituir, finalmente, o carácter épico e cósmico no espectáculo. Os sintetizadores a trabalhar em consonância e em aceleração (trazendo à memória Equinoxe de Jean-Michel Jarre), acompanhados por uma imagem suavemente heterogénea a inundar o LCD da rectaguarda lançaram as bases para esse momento contemplativo e inimigo da dança desenfreada. Eventualmente surgiria um baixo robusto para sossego das almas mais impacientes com a ausência de movimento, bem como o aquecer dos motores (“Steam Machine”) para a primeira revisitação nostálgica da noite – “Around The World”. Os Daft Punk sabem que este êxito não carece de companhia e suporte, pelo que naturalmente se limitaram a deixá-la fluir solitariamente, por um par de minutos, para deleite de todos os amantes de linhas de baixo. A provocação viria no embate de “Around The World” com “Harder Better Faster Stronger”, dois tratados de música electrónica. Conjugar dois elementos tão clarividentes como a soberba linha de baixo da primeira e o quase lema olímpico vocoderizado da segunda é tarefa que chegue.
Mais tarde, já decorrida a expansão tecnológica no mundo inteiro (“Technologic e “Around The World”) chega a vez de Romanthony nesse quase kitch refrão de “Too Long”, repetido em loop até o ritmo se aproximar do zero. Então logo se fez silêncio e o cenário escureceu. À primeira pausa o público manifestou-se efusivamente. E os gauleses decidiram-se pela experimentação: “Face to Face” e “Harder Better Faster Stronger” em sobreposição e em aumento de velocidade, com a segunda transformada em linha melódica a sustentar os vocais da primeira. Passou-se da desorientação geral (as pessoas têm um problema com sons vagamente descompassados) à dança num curto espaço de tempo, numa brilhante manipulação dos originais. A estabilização pop viria com “One More Time” e “Aerodynamic”, criando-se uma nuvem de pó sobre a multidão tumultuosa, especialmente aquela que subitamente desperta com o reconhecimento de um single.
O último terço do espectáculo centrar-se-ia em Homework e Human After All, provando que no fim de contas há uma certa afinidade entre ambos, em contraste com a ornamentação barroca de Discovery. Inseriram a remistura que fizeram para a Gabrielle (“Forget About the World”) e, daqui para a frente, não haveria como proteger os ouvidos dos decibéis. “Rollin’ and Scratchin’”, “The Brainwasher”, “Alive” e essa glorificação tecnológica à infância chamada “The Prime Time Of Your Life” electrizaram os mais cansados, obrigando-os a um último fôlego – “Steam Machine” e “Da Funk”. Esta última é de uma simplicidade que arrelia, visto que é imediatamente reconhecível recorrendo a uma sequência de bateria inicial escandalosamente simples. “Da Funk” seria, no entanto, a derradeira passagem meramente musical, porque para o final estava reservada a verdadeira sinopse de todo o espectáculo: a mitificação da dupla a cargo de “Superheroes”, a confirmação da predominância da raiz humana através de “Human After All” ao som da epopeia maximal “Rock’n Roll” e o desfile de rostos e lugares nos ecrãs frontais da pirâmide, na celebração da diversidade humana.
Em grande parte do concerto é difícil afirmar que haja uma clara demonstração de virtuosismo técnico. Em comparação com o álbum Alive 1997, o actual espectáculo peca ao não exibir semelhante passeio de habilidades e intuição musical (instantânea, pois claro). Parece haver uma menor preocupação em relação às passagens e à suavidade das mesmas mas, considerando que eles não regrediram na matéria, tal dever-se-á à mudança de objectivos. Ao longo do set foram-nos oferecidas passagens equilibradas e também cortes bruscos. O virtuosismo técnico é portanto apenas mediano, sacrificado em prol de um trabalho extraordinariamente mais ambicioso do que o Alive 1997. O alcance é o cerne da obra e a razão da sua aparente simplicidade.
A meta a atingir é das mais multifacetadas que se pode imaginar. Satirizar a criação musical, parabolizar a vida de dois robôs humanos e integrar as pessoas nesse fábula, rivalizar com outros monstros da ficção científica, incluir pequenas subtilezas e referências e tentar agradar todos os tipos de público são tarefas normalmente impossíveis de conjugar. A maioria dos músicos limita-se a tentar seduzir o público, fazendo-o cantar, dançar ou aplaudir, e não raras vezes nisso falham. O espectáculo montado pelos Daft Punk constitui então manifesto estético praticamente sem paralelo nos dias de hoje e um desafio para toda a comunidade musical.
5 Comments:
onírico? que tem a ver com sonhos? detesto pretensiosismos...
Esse pretensiosismo está nos Daft Punk ou na utilização da palavra "onírico" pela minha parte?
utilização. só por ser uma palavra que fica bem. embora nada tenha a ver. os dafto punk nao criam, nao vivem nem nos transportam para sonhos, mas sim para mundos, galáxias, planeta, fora daqui. mas sempre consciente. nao concordas?
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Devo confessar que não tenho grandes preocupações estéticas na feitura dos meus posts. Limito-me a recorrer às palavras que exprimem o mais precisamente possível as minhas ideias. Recorri então ao termo "onírico" para atribuir ao mundo construído pelos Daft Punk um tom fabuloso e irreal, próximo dos sonhos. Até porque a palavra "sonho" é também sinónimo de ilusão e utopia, e só uma leitura mais estrita nos leva a considerar que os sonhos são apenas os fenómenos de alucinação visual que acontecem durante o sono. A inclusão da palavra no texto foi de facto ponderada, pelo que rejeito o meu suposto pretensiosismo.
Parece-me, aliás, que há um desencontro entre a primeira crítica que me fazes e a segunda. Discordar do que eu afirmo não é exactamente o mesmo que supôr que recorri à palavra para efeitos de ostentação vocabular. Acho enriquecedor que se discuta com seriedade e que me digas que os daft punk não nos transportam para sonhos, mas assumires imediatamente que não tenho explicação para a utilização da palavra parece-me precipitado e de uma certa desconfiança.
Quanto ao que perguntas, sou da opinião que os Daft Punk fazem mais do que nos transportar para mundos e galáxias distantes, até porque existem outros músicos que fazem o mesmo mas conferem a esses mundos um carácter mais incerto e inóspito e portanto mais realista. Há toda uma alucinação eufórica (espcialmente em Discovery) que torna esses mundos mais próximos da fantasia e do sonho (enquanto ilusão) do que da previsível inospitalidade. No entanto, essa mensagem está escrita de maneira a nos permitir viajar conscientemente e totalmente despertos, pelo que nesse aspecto concordo contigo.
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