terça-feira, fevereiro 21, 2006

Sobre o Teatro


Como tudo no tempo em que vivemos, sobre o teatro há ideias, facções, partes contraditórias e todo o tipo de preconceitos. Há maneirismos, repetições, correntes, várias concepções e feitios. Há os bons actores, os bons encenadores, os bons coreógrafos, todos eles cada vez menos; e há os outros, os críticos, os actores, os novos artistas, os eternos buscadores da mera glória. Mas o que é, afinal, representar, vai bem para além de toda uma gentalha que procura sucesso imediato, próprio desta sociedade de consumo, assim mesmo, imediato, onde estrelas de ocasião se sucedem sem a percepção que são marionetas manietadas nas mãos de quem o teatro social enceta.
Que representar, no fundo, não é a busca do fácil, mas o complexo do óbvio. Que representar não é mais do que a busca dos porquês. Face a uma personagem, o actor, quando ainda fora dela, não tem mais a fazer se não entrar numa espiral de sentido único, onde se inteira da personagem e onde se deixa a personagem inteirar dele. O teatro, a representação de uma personagem, a encenação de um texto é a contextualização do mesmo, tem como único propósito fazer cada fala ter sentido. E não ir a uma ementa de preconceitos teatrais e buscar o maneirismo que melhor se adeqúe. Pois a quem faz de bêbado não basta cambalear, a quem faz de cego não basta tropeçar. È fácil a tentação do óbvio.
Ao actor, perante determinada peça, cabe-lhe lê-la, vezes e vezes e vezes, e para além disso, ler para lá do que está escrito, entrar no inconsciente da sua personagem e no consciente e no subconsciente, de tal forma que consiga ser a própria personagem, mesmo que para isso tenha de dar um pouco de si à personagem e tenha de a moldar a si. Cabe-lhe ser a personagem de tal forma, que tudo o que diz em palco, quer o que esteja escrito quer o que improvise, faça cabal sentido, seja natural. A busca da naturalidade em palco, que legitimamente existe, só é atingível, pela interiorização da personagem. Assim, o actor deseja que algo corra mal na peça, que algo fuja ao mero texto, para que possa provar que a sua personagem existe, que é real e vai para além do texto, que não é mais que uma parte da sua história.
E talvez queiramos esquecer tudo isto quando entrarmos em muitas salas nacionais, pois que o mero abanar do corpo, o debitar de um texto como se de um exame oral se tratasse e a movimentação programada e mecanizada parecem ser suficientes para cativar um público que se deixa enganar por nomes e publicidades. Resta-nos a sorte de encontrar pequenas peças, pequenos nomes, pequenas salas que buscam a essência e uma meia dúzia contável de nomes sonantes, que para além do seu quinhão, continuam a lutar pela verdade teatral.

6 Comments:

Blogger colibree said...

só quem vive (para) o teatro, percebe aquilo que tu escreveste.

6:54 da tarde  
Blogger colibree said...

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

6:54 da tarde  
Blogger Hitchhiker said...

Percebo o que dizes. Ainda assim, é importante também ler isto à luz de um público que se precisa mais exigente. Infelizmente, é da pressão do público que nascem as mudanças. É complicado mudar e querer que o público o faça também.

8:40 da tarde  
Blogger colibree said...

Não fosse o público uma peça fundamental do teatro, algo que o torna único.

12:50 da tarde  
Blogger espectador said...

Não culpemos os teatros, os artistas e gentes da arte deste país, que muito esforço fazem para sobreviver neste mundo ainda mal amado, mal compreendido das artes. Público sem educação cultural transforma o que de melhor temos pelo consumismo desenfreado e põe em cima dos palcos a nossa gente de talento a fazer figuras ridículas, a rebaixar-se para agradar e junta-os com gente sem talento que agrada por estar na moda.
Mas, a culpa é nossa, público, que não põe a mão na consciência e dá importância ao menos importante.
http://artelusitana.blogspot.com

12:29 da tarde  
Blogger Hitchhiker said...

Obrigado por tão elucidtivo comentário. É verdade que compete ao público exercer essa pressão de qualidade, pois é dele que, como disse, pode nascer a mudança. Mas também percebo que se torne difícil ter um público interessado e atento, quando o que chega em massa a esse público é o contrário do que defendemos. É preciso "educar" o público e desmistificar a Arte, neste caso o Teatro, como não sendo nada de elitista e eclético.

5:34 da tarde  

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