sábado, fevereiro 24, 2007

O Último Rei da Escócia

O cinema americano, o de Hollywood entenda-se, tem destas coisas. Ciclicamente, que é como quem praticamente diz de ano a ano, pega num tema geral e consagra-o, consagrando todas as perspectivas à sua volta. Com Diamante de Sangue e O Último Rei da Escócia, África parece ser o pano de fundo deste ano. E, pese as diferenças, há pontos de contacto fortes entre os dois filmes. A figura de uma África dilacerada pela pobreza, quer económica quer humana, pela corrupção e por um jogo de influências que a ninguém parece interessar.

Diz Jorge Mourinha, a propósito de O Último Rei da Escócia, que “os óscares adoram números de actor”. Se assim for, deixe-se já aqui bem claro: o Óscar, como já aconteceu com o Globo de Ouro e o Prémio para melhor actor de várias associações de críticos, vai parar às mãos de Forest Whitaker. A interpretação do ditador do Uganda Idi Amin Dada é estarrecedora. Desde a pronúncia, passando pelo porte, pelo andar, pela expressão facial ou gestual, há ali verdadeiro trabalho de actor, de construção de personagem. Longe, muito longe de todos os estereótipos que abundam amiúde no cinema americano.

Sabe ainda bem ver um actor como Forest Whitaker reconhecido. Mas, se o facto agrada, não tanto quando se vê que acontece à custa do filme. O Último Rei da Escócia é mais do que Forest Whitaker. Não muito mais, mas há margem de manobra para além do trabalho de actor. Há um filme que ultrapassa o documentário à custa da personagem do médico Nicholas Garrigan. Uma visão que começa calorosa mas acaba fria sobre um Uganda que é apenas mais um país africano, no sentido da desgraça, da pobreza e do conflito. Politicamente, o melhor virá mesmo nas palavras da personagem de uma muito sumida Gillian Anderson, quando este refere a ciclicidade de ditadores, de regimes e de opressões.

Retrato do Uganda dos anos 70, quando governado com mãos de ferro por Idi Amin Dada, o filme é-nos apresentado pelos olhos do naif médico escocês Garrigan, recém chegado ao Uganda e recém fugido de casa. É a sua relação com o ditador, entre a descoberta e a desilusão, que pauta o filme. Daí a boa opção da realização. O que poderia ser um filme de tom morno, não o é quando visto à luz desta relação. O tom do filme é num crescendo contínuo de dramatismo cru, nem sempre bem conseguido, mas que acompanha bem a percepção de Garrigan. É quando a sua ingenuidade desaparece, que a ingenuidade do filme cai, revelando uma realidade bem mais fria e brutal.

A verdade é que fica na boca o mesmo travozinho amargo que sentimos com Diamante de Sangue, pela diferença entre o que foi e o que podia ter sido. Com a vantagem de que O Último Rei da Escócia não esconde ao que vem e apenas nos vandaliza sensorialmente, mas de forma consciente, perto do final do filme. A verdade, de novo, é que chegamos ao fim dos dois filmes com a mesma certeza na boca: This Is Africa.

Título: O Último Rei da Escócia
Realização: Kevin MacDonald
Elenco: Forest Whitaker, James McAvoy, Gillian Anderson, Kerry Washington, Simon McBurney, David Oyelowo e Abby Mukiibi Nkaaga.
Reino Unido, 2006.

Nota: 7/10

2 Comments:

Anonymous sá em tallin said...

muito bom post! mais uma vez este blog a demonstrar porque é que é o melhor nesta complicada missao de criticar a arte.

9:22 da tarde  
Anonymous Revo said...

This is 'not only' África. Apesar do filme não ter explicitado, há jogos de interesse internacionais contribuindo com boa parte do que acontece por lá.

11:35 da manhã  

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