segunda-feira, dezembro 04, 2006

Prateleira #7 - O Monstro Precisa de Amigos

“Chegámos ao fim da canção
E paro um pouco para dormir”

Como é óbvio, começamos pelo fim. “Chegámos ao fim da canção”, ouve-se por altura da última faixa, “Fim da Canção”. Não mentem. Esta é, de verdade, apenas uma canção. Tão somente isso. Rock, Punk, Hard-Rock, Poesia, balada, melodia, explosão, ir e voltar. Tudo isto numa canção. Que são no fundo treze, mas isso não importa. Bem-vindos a um dos melhores álbuns portugueses da década de 90.

Em 1997, Cão já deixava antever uma inovação acima do normal, mas quem seria capaz de adivinhar que o diamante se poliria tão rapidamente? É fácil, dirão agora. Bastava ouvir “A Dama do Sinal”, “Bigamia” ou “Mata-me Outra Vez”. E têm razão. Estava tudo lá.

Chegou então o ano da graça de 1999. Bendito seja. Este é também o ano em que colaboram com uma versão de “Circo de Feras” para o cd XX Anos XX Bandas, tributo aos Xutos&Pontapés. Mas é, acima de tudo, o ano de O Monstro Precisa de Amigos, um disco revelador. Revelador de uma banda que criaria um público fiel à sua força. Revelador de um poeta na sua maior expressividade musical. Revelador de alguns dos melhores músicos da sua geração. Revelador de parte da música portuguesa desta década.

Relembre-se que se trata apenas de um álbum de canções. A última vez que escrevi isto de um álbum foi sobre Todos os dias fossem estes outros, de Nuno Prata. Coincidência? Talvez. A formação dos Ornatos Violeta incluía Manuel Cruz, Peixe, Kinorm, Elísio Donas e Nuno Prata. Esta é a grandeza de O Monstro Precisa de Amigos. É um salto enorme em relação a Cão e é uma catapulta, hoje notória, para o que dali sairia. Manuel Cruz e Peixe seguiriam para os Pluto. Manuel Cruz seguiria ainda para os Supernada. Nuno Prata lançaria este ano o seu prometedor trabalho a solo. Falta ainda Manuel Cruz na versão a solo. Está programado para o próximo ano, sob o nome de Foge Foge Bandido.

“O que eu quis mostrar ao mundo
era tão forte e tão profundo.
Eu quase me afoguei na emoção.”


Em O Monstro Precisa de Amigos há uma explosão confluente de influências e experiências. Há a mais terna e melancólica balada Pop-Rock dos anos 90. Há a irreverência própria de uma juventude que insiste em gritar, estilo Arctic Monkeys. Há a faceta mais Hard-Rock dos Xutos, o mais profundo de uma letra de Jorge Palma, o lado mais negro dos Smashing Pumpkins. Tudo num mundo paralelo, que é no fundo o mesmo, onde a poesia é rainha e senhora. É um álbum de canções porque a excelência da palavra assim o permite.

Abre com “Tanque”, primeira prova de que a poesia é a força motriz de todo o álbum. “Se uma vida não chegar / Hei-de ter cem vida mais / Quantas mais ditar o coração”. Estamos conversados. Segue-se “Chaga”, banda sonora de uma perseguição alucinante. Scorsese em melodia romântica. Segue com o mesmo ritmo “Dia Mau”, onde se fala dos efeitos secundários da poesia (sempre com músicas curtas, como se pede a uma canção, sempre por volta dos 2/3 minutos). “Para nunca mais mentir” seria uma boa música se não antecedesse uma música enorme. “Ouvi Dizer”, em dueto com Vítor Espadinha, é um momento alto da canção portuguesa. Poesia com alterações de ritmo. A languidez melosa da voz de Cruz a arrastar-se a caminho da raiva, a forma que arranjou de nos pagar. Nós agradecemos. Ainda é possível sofrer de amor com qualidade.

A sexta faixa apresenta-nos um dueto com Gordon Gano, vocalista dos Violent Femmes, em “Capitão Romance”, outro ponto alto desta grande canção que é este monstro. “Pára de olhar para mim” é feita daquela essência sonora que caracteriza os Ornatos Violeta e fez deles um marco. “Dá-me a tua mão / E vamos ser alguém / A vida é feita para nós” ouve-se em “O.M.E.M.”, Operação Minimização do Ego Maximizado. “Acordar é bom. Mais fácil é dormir”. Mais poesia pela voz do suspeito do costume.

Delicodoce vem, de mansinho, “Coisas”, por altura da qual tudo isto se começa a tornar num grande livro de poemas, uma única e coesa canção. Melodicamente vemos a voz de Cruz empurrar-nos, sem o percebermos, para “Nuvem”. Começa a preocupar-nos que tudo isto faça sentido. O conjunto, o álbum, a melancolia, a qualidade. Não interessa. Já à espreita está “Deixa Morrer”, que aparece assim, acendendo uma luz. Sol de pouca dura. “Notícias do Fundo” antecedem “Fim da Canção”. Aqui ouve-se que “A dor chegou para ficar” Com um cd destes, não admira.

É, sem mentira, um Monstro de que aqui se fala. Pela positiva. Um monstro da música portuguesa. E ainda bem que ele precisa de amigos. Nuno Prata e Manuel Cruz têm-lhe dado alguns bons amigos. Esperemos ansiosamente pela proliferação da amizade.

“Foi tão bom
Para ti
Como foi para mim”


Foi com certeza.
Título: O Monstro Precisa de Amigos
Autor: Ornatos Violeta
Nota: 9/10

3 Comments:

Anonymous martim said...

Fico feliz pelos ornatos serem uma referência também para vocês.
Continuem com o bom trabalho.

12:44 da manhã  
Blogger RD said...

Especial, muito....

9:11 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Os melhores de sempre, a banda sonora de uma vida!

6:00 da tarde  

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