Filoctetes de Sófocles

Luís Miguel Cintra é uma das principais referências do teatro nacional das últimas três décadas. É comum ouvir-se jovens actores portugueses louvarem o seu mestre. Veja-se o exemplo de Nuno Lopes quando recebeu o Globo de Ouro 2006 pela sua interpretação no filme Alice. Para quem nunca viu Luís Miguel Cintra em palco, pensa que este tipo de dedicatória resume-se a um jovem actor agradecido pelo acolhimento e ensinamentos do líder da Cornucópia. Para quem já assistiu a uma interpretação deste percebe facilmente que é muito mais do que isto. É a dimensão das suas capacidades que o elevam, a coerência das personagens, a preocupação com os sentimentos, a voz, a entoação. Em entrevista, o actor disse que com a velhice o corpo fica muito mais limitado, fica-se cansado, a voz também, a memória fica pior, pensa-se pior. Eu confesso que não vi Luís Miguel Cintra interpretar um papel há 10 anos atrás, mas não consigo imaginar que fosse qualitativamente melhor. É impossível!
A última personagem interpretada pelo actor natural de Espanha chama-se Filoctetes e é a personagem principal de uma tragédia grega com o mesmo nome, da autoria de Sófocles. É uma obra que foi escrita há mais de 2500 anos. Qual a relação duma obra tão antiga com a filosofia do Teatro da Cornucópia? Como conseguiria Luís Miguel Cintra transpor as palavras de Sófocles para actualidade? Qual o debate que o encenador (para quem não sabe, Luís Miguel Cintra acumula a excelência da interpretação com a intuição da encenação) pretende trazer para a rua? Quisemos um espectáculo cru, artificiosamente, eu sei, despojado de enfeites e acessórios. Perto das palavras. Perdoem-me a colagem mas esta citação de Luís Miguel Cintra é a resposta. O encenador foi ao âmago da escrita de Sófocles e descobriu, como é próprio dos grandes autores, a intemporalidade das suas palavras. Para tal, recebeu a preciosa ajuda de Frederico Lourenço, autor da recriação poética. Mais concretamente o que é Filoctetes? É uma personagem que foi traída e atirada para solidão acompanhada por dolorosas dores e um arco sagrado. Nove anos passados é confrontada com a pureza e jovialidade de Neoptólemo, que surpreendentemente o trai pela força do seu maior inimigo, Ulisses. Filoctetes é indispensável para a vitória em Tróia e tudo tinha que ser feito para o persuadir para o combate. O conflito de gerações, a traição, o orgulho, a ingenuidade são as pontes da Grécia Antiga para a actualidade.
Estas três personagens são auxiliadas por um coro de marinheiros, um vigia disfarçado de mercador (mais um pormenor genial de Luís Miguel Cintra que não vou desvendar), outro vigia e Héracles. O elenco responsável pela interpretação é formado por André Silva, António Fonseca, Duarte Guimarães, José Manuel Mendes, Luís Lima Barreto, Luís Miguel Cintra, Martim Pedroso, Nuno Gil e Tiago Matias. Todos os actores respeitaram o desejo do mestre e procuraram nas suas personagens as suas fragilidades, medos, motivações, ambições…o lado humano de cada um. Para além de Luís Miguel Cintra e pelo peso das personagens, destaco as interpretações de Duarte Guimarães e António Fonseca, Neoptólemo e Ulisses, respectivamente.
A todo este jogo de conceitos e interpretações acrescenta-se uma encenação bastante subtil, sustentada por um cenário brilhante, conceptualmente minimalista, com o intuito de nos aproximar das palavras
2 Comments:
Realce para o destaque dado ao tédio e ao isolamento, num tratamento literário que só seria levado às últimas consequências já depois do século XVIII. O texto original é, a todos os níveis, impressionante, mesmo que dispensável quando considerando outras grandes obras do período helenista.
Há algum tempo fiz aqui um comentário quanto aos posts que pretendiam realçar certos actores dramáticos nacionais. Na altura critiquei o facto de apenas serem mencionados actores de comédia. É com agradável surpresa que, após bastante tempo, volto a este blog e me deparo com esta evoluçao.
Enviar um comentário
<< Home